Quando fui baleado a primeira coisa em que pensei fora você.
Ele viera com sua arma e me pedira a carteira. Levantou aquele metal brilhante em direção ao meu pulsante coração amedrontado. Teve a decência de me olhar nos olhos impiedosamente antes de, com a simplicidade de um movimento de dedo, colocar uma vírgula nos meus sonhos. Era isso. Todos os planos, desejos e futuro estavam cessando em troca de algumas notas coloridas em uma carteira de couro. Quando a primeira bala perfurou-me não houve estalido, dor ou impacto. Não movi um músculo, apenas fechara os olhos. O silêncio vibrante suprimiu todo o resto e seu sorriso declarou-se, pintado em minhas memórias.
Você.
Era o universo prendendo a respiração enquanto eu, talvez uma última vez, me deliciava com a sua feição.
Abri os olhos lentamente. O metal quente ainda estava apontado para mim. Desci o olhar vagarosamente e toquei o peito com as pontas dos dedos. Eles se sujaram, rubro, vivo, envergonhados. Meu sangue se esvaía com a mesma velocidade que minhas ilusões de felicidade futura.
Lembrei do seu toque.
Olhei novamente nos olhos desumanos que me assistiam sucumbir e ele disparou novamente.
Desta vez fora cruel. O estampido fora ensurdecedor e o impacto me jogara contra a parede. Sabia que o projétil havia me rasgado por dentro e encontrava uma imensa dificuldade em respirar.
Senti falta do seu abraço.
A dor lancinante insistia em me tomar a consciência. Escorreguei pela parede de encontro ao chão, pintado-a de vermelho por onde minhas costas tocavam. Uma arte obscena. Um fruto da habitual iniqüidade humana. O homem calmamente pegara minha carteira, minha vida, e se fora. Eu não conseguia me mexer. O asfalto estava frio e parecia grudar em meu rosto. Não era uma boa maneira de se morrer. O vento sussurrava despedidas inteligíveis em meus ouvidos. Vozes desesperadas e o calor de seus donos tentavam me manter aquecido. Reconheci as mãos que acariciavam meu rosto, embora não a pudesse ver. Nem o hálito da morte poderia me confundir se tratando de você. Suas mãos tremiam e seu medo sentara-se ao nosso redor, velando por meu corpo sublinhado por terra. Desejava te olhar e, por trás das lágrimas, vi teu rosto contra o céu movendo-se de forma negativa, como se não acreditasse. O medo nos seus olhos magoara mais que as feridas na minha carne. Tive vontade de abraçá-la. De sorrir para lhe mostrar que estava tudo bem. Todavia não houve palavra. Não houve fôlego. Não houve vida. Segurou minha mão e tocou meus lábios maculados. Impotente. Assistindo ao fim, enquanto eu virava estatística. Apenas mais uma vida tirando outra. Mais um ser humano atirando no espelho.
Sentia frio, vida e sangue deixando-me. Tive vontade de trocar seu pranto por risadas, ainda que algumas poucas.
Senti saudade das palavras doces.
Estou morrendo e a única coisa em que eu consigo pensar é...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Um
Chovia e suas roupas estavam ensopadas. Os cabelos grudavam na testa e os lábios se tocavam umedecidos pela água que caía das estrelas. Abraçados de pé em uma praça, ele olhou para sua outra parte e ela sorria. Aquilo era mágico! A noite sorria com ela e por um momento ele não conseguia mais ouvir o barulho das gotas tocando o solo ou as folhas das árvores que se agitavam por todo o redor. Apertou-a contra seu corpo e ouviu não um par de corações ritmados, mas apenas um.
Era exatamente o que sentia.
Unidade.
Tocá-la era se tocar, vê-la sorrir era estar feliz, amá-la era estar vivo.
Perguntou-a se preferiria esconder-se da torrente impetuosa que provinha das nuvens e sua resposta não poderia ser mais perfeita. Ela preferia manter-se ali, ainda que fatigada, unida a ele. De tal modo a confundir-se ambos.
A torna-se um.
Sorriram, felizes com a simplicidade da vida. O desejo veemente presente era satisfeito com a mistura de algumas gotas de chuva, olhares e mãos entrelaçadas. Era a combinação para a excelência.
Olharam-se paciente e carinhosamente por uma eternidade ou mais e se beijaram.
Naquele momento, não havia altura ou profundidade, medo, dor, presente ou futuro.
Predominava a certeza de que nada os separaria.
Pois eram mais do que mil.
Eram Um.
Era exatamente o que sentia.
Unidade.
Tocá-la era se tocar, vê-la sorrir era estar feliz, amá-la era estar vivo.
Perguntou-a se preferiria esconder-se da torrente impetuosa que provinha das nuvens e sua resposta não poderia ser mais perfeita. Ela preferia manter-se ali, ainda que fatigada, unida a ele. De tal modo a confundir-se ambos.
A torna-se um.
Sorriram, felizes com a simplicidade da vida. O desejo veemente presente era satisfeito com a mistura de algumas gotas de chuva, olhares e mãos entrelaçadas. Era a combinação para a excelência.
Olharam-se paciente e carinhosamente por uma eternidade ou mais e se beijaram.
Naquele momento, não havia altura ou profundidade, medo, dor, presente ou futuro.
Predominava a certeza de que nada os separaria.
Pois eram mais do que mil.
Eram Um.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Viver
Sou cego, tenho câncer e sei que vou morrer.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Por favor
Papai Noel,
não quero mais a bicicleta que pedi.
Papai voltou a fumar.
Mamãe tem tomado remédios.
Eu a vejo sempre com olhos inchados.
Papai Noel, esqueça-se da boneca que havia pedido.
Faça-os parar de brigar.
Por favor.
A raiva deles magoa meus ouvidos.
Por favor, eu serei sempre uma boa criança.
Mas não deixe meu lar se tornar uma casa mal-assombrada.
Por favor.
não quero mais a bicicleta que pedi.
Papai voltou a fumar.
Mamãe tem tomado remédios.
Eu a vejo sempre com olhos inchados.
Papai Noel, esqueça-se da boneca que havia pedido.
Faça-os parar de brigar.
Por favor.
A raiva deles magoa meus ouvidos.
Por favor, eu serei sempre uma boa criança.
Mas não deixe meu lar se tornar uma casa mal-assombrada.
Por favor.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Um anjo no quarto
Ele era jovem. Mas já desejava escapar deste mundo. A decisão já havia sido tomada, embora o pensamento do ato fosse indesejado. Era claro que era a mais pura demonstração de egoísmo, mas a esmagadora sensação de deslocamento que sentia sobrepunha-se sobre a razão. Subiu as escadas para o apartamento vagarosamente. Cada passada era bela, única. Última. Girou a maçaneta e entrou no aposento escuro. Estava praticamente vazio, exceto por uma prateleira apinhada de livros e um colchão no chão. A luz da rua entrava pela janela aberta e pousava sobre o corpo dela. O lençol se esparramava por cima do corpo despreocupadamente. Uma das mãos descansava no chão, enquanto a outra abraçava o travesseiro no lado vazio do colchão, onde ele deveria estar deitado. Onde era seu lugar. O rosto dela estava claro, tranqüilo. Puro. Parecia emanar luz. Ele desenhou com o olhar cada linha da sobrancelha, dos olhos fechados, os cabelos negros que flutuavam sobre o travesseiro. Chegou mais perto. Ela era extraordinariamente bonita. Ele a tocou levemente o rosto e sentiu vontade de aninhar-se a ela. Necessidade dela. Desejou por um momento que ela abrisse os olhos, porque queria que ela olhasse nos seus. Ela se moveu preguiçosamente e colocou sua mão na dele, para mantê-la em seu rosto. Ele tentou levantar-se para não acordá-la.
— Oh, não ouse me deixar — sua voz sorria suavemente.
A voz. Era vida. Ele a olhou e ela sorria sonolentamente. Por um momento ele pensou que aquele pedido não era algo que precisava ser verbalizado. Não havia realmente um mundo. Não havia tristeza, ou medos. Havia apenas aquele sorriso. Apenas aquela voz. Ele acariciou os cabelos negros e sentiu-se completo pela primeira vez no dia. Percebeu que a amava na essência, na plenitude. E que não era algo do qual se poderia abrir mão. Não conseguia se lembrar porque desejava desistir de tudo apenas instantes atrás.
— Gostaria de um pouco de chá. Mas tomaremos amanhã — os olhos estavam fechados e a voz serena.
Ele concordou com um sorriso e preparou-se para se deitar ao lado dela. Sentia que poderia ficar ali para sempre descobrindo novas maneiras de se apaixonar por ela de novo.
Oh, haveria um amanhã.
Porque aquele amor.
Era viver.
— Oh, não ouse me deixar — sua voz sorria suavemente.
A voz. Era vida. Ele a olhou e ela sorria sonolentamente. Por um momento ele pensou que aquele pedido não era algo que precisava ser verbalizado. Não havia realmente um mundo. Não havia tristeza, ou medos. Havia apenas aquele sorriso. Apenas aquela voz. Ele acariciou os cabelos negros e sentiu-se completo pela primeira vez no dia. Percebeu que a amava na essência, na plenitude. E que não era algo do qual se poderia abrir mão. Não conseguia se lembrar porque desejava desistir de tudo apenas instantes atrás.
— Gostaria de um pouco de chá. Mas tomaremos amanhã — os olhos estavam fechados e a voz serena.
Ele concordou com um sorriso e preparou-se para se deitar ao lado dela. Sentia que poderia ficar ali para sempre descobrindo novas maneiras de se apaixonar por ela de novo.
Oh, haveria um amanhã.
Porque aquele amor.
Era viver.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Princípio de Existência
O verde era assustadoramente bonito de se ver à noite. Era diferente de todo o concreto das cidades com o qual tinha me acostumado. Descia por um gramado silencioso e vazio, às margens de uma cidade que podia ser vista ao longe. A grama era gostosa quando pisada. Não me lembrava da última vez que havia feito isso.
Eu caminhava na direção de um ponto luminoso que via à frente. A luz era atraente, como um ímã. Ao aproximar-me, foi tomando forma, mostrando-se uma menina extraordinariamente bonita. Brincava, distraída, com uma rosa, sentada no chão. Olhou-me e, por alguma razão, naquele momento eu soube. Não se tratava de uma menina. Era uma estrela. Possuía o brilho poético de muitas gerações. Possuía graça. Brindou-me com um sorriso triste e sentei-me ao seu lado. A rosa girava entre seus dedos. Vez por outra lançava olhares magoados na direção da cidade que brilhava ao longe. Era possível sentir a vida pulsando em suas ruas, com seus carros e sua agitação.
— Isso me deixa triste.
A voz lembrava-me água correndo em riachos. Ela circundou o jardim com os olhos, como que para se explicar. Seus olhos pousavam em pontos coloridos espalhados pelo jardim. Lixo. Arrastou os olhos na direção da imunda nuvem cinzenta que pairava permanentemente a cima da cidade. Mais lixo.
— Estão apagando a vida. O céu. Quase não se pode ver mais as estrelas — disse com sua voz pura.
— Você é meio ambientalista, não é mesmo? — Comentei sorrindo.
— Só um ser humano não seria.
Senti-me envergonhado, pois sabia que era verdade. Não fazíamos nada além de entulhar o mundo com assombrosa rapidez. E éramos muito bons no que fazíamos. Fui invadido por uma série de sentimentos que pareciam emanar da estrela ao meu lado. Senti que nos escondíamos atrás de promessas de melhoria de vida enquanto, na verdade, respirávamos morte e soprávamos a vida pro alto. Olhei perdido para a cidade maculada e me perguntei o que era vida. A estrela pareceu sentir.
— Feche seus olhos. Vou lhe mostrar o que é vida.
Estendeu-me sua mão brilhante e eu a segurei de olhos fechados. Uma brisa correu pela grama e encobriu o cheiro imundo do lixo por um instante. Trazia o aroma de terra molhada, grama recém cortada, e flores selvagens. Pensei ter ouvido o som de rios correndo e pássaros cantando. Desejei ver campos de trigo e comer frutas no cacho. Com os olhos fechados vi gramados sem embalagens plásticas, rios sem latinhas metálicas flutuando. As nuvens ainda eram apenas sinais de chuva, e não mais sinais de morte. Senti saudade daquilo. Saudade de algo que quase não existia mais. Algo que muitas gerações jamais conheceriam. A estrela soltou minha mão com leveza. Parecia ainda mais bonita e mais pura. Olhou-me nos olhos. Tive a sensação que me olhava a alma.
— O tempo dará um beijo de adeus no mundo — disse com uma profunda tristeza em cada nota da sua voz. Estendeu-me a mão e me presenteou com a rosa com a qual estivera brincando. — Adeus.
Mexi-me na cama e acordei.
Havia tido um sonho estranho.
Na mesa ao lado da cama, deitada pacientemente, havia uma rosa.
Contrastava com as buzinas, sirenes e concreto da vida urbana.
Vida que se esvaía rapidamente.
Eu caminhava na direção de um ponto luminoso que via à frente. A luz era atraente, como um ímã. Ao aproximar-me, foi tomando forma, mostrando-se uma menina extraordinariamente bonita. Brincava, distraída, com uma rosa, sentada no chão. Olhou-me e, por alguma razão, naquele momento eu soube. Não se tratava de uma menina. Era uma estrela. Possuía o brilho poético de muitas gerações. Possuía graça. Brindou-me com um sorriso triste e sentei-me ao seu lado. A rosa girava entre seus dedos. Vez por outra lançava olhares magoados na direção da cidade que brilhava ao longe. Era possível sentir a vida pulsando em suas ruas, com seus carros e sua agitação.
— Isso me deixa triste.
A voz lembrava-me água correndo em riachos. Ela circundou o jardim com os olhos, como que para se explicar. Seus olhos pousavam em pontos coloridos espalhados pelo jardim. Lixo. Arrastou os olhos na direção da imunda nuvem cinzenta que pairava permanentemente a cima da cidade. Mais lixo.
— Estão apagando a vida. O céu. Quase não se pode ver mais as estrelas — disse com sua voz pura.
— Você é meio ambientalista, não é mesmo? — Comentei sorrindo.
— Só um ser humano não seria.
Senti-me envergonhado, pois sabia que era verdade. Não fazíamos nada além de entulhar o mundo com assombrosa rapidez. E éramos muito bons no que fazíamos. Fui invadido por uma série de sentimentos que pareciam emanar da estrela ao meu lado. Senti que nos escondíamos atrás de promessas de melhoria de vida enquanto, na verdade, respirávamos morte e soprávamos a vida pro alto. Olhei perdido para a cidade maculada e me perguntei o que era vida. A estrela pareceu sentir.
— Feche seus olhos. Vou lhe mostrar o que é vida.
Estendeu-me sua mão brilhante e eu a segurei de olhos fechados. Uma brisa correu pela grama e encobriu o cheiro imundo do lixo por um instante. Trazia o aroma de terra molhada, grama recém cortada, e flores selvagens. Pensei ter ouvido o som de rios correndo e pássaros cantando. Desejei ver campos de trigo e comer frutas no cacho. Com os olhos fechados vi gramados sem embalagens plásticas, rios sem latinhas metálicas flutuando. As nuvens ainda eram apenas sinais de chuva, e não mais sinais de morte. Senti saudade daquilo. Saudade de algo que quase não existia mais. Algo que muitas gerações jamais conheceriam. A estrela soltou minha mão com leveza. Parecia ainda mais bonita e mais pura. Olhou-me nos olhos. Tive a sensação que me olhava a alma.
— O tempo dará um beijo de adeus no mundo — disse com uma profunda tristeza em cada nota da sua voz. Estendeu-me a mão e me presenteou com a rosa com a qual estivera brincando. — Adeus.
Mexi-me na cama e acordei.
Havia tido um sonho estranho.
Na mesa ao lado da cama, deitada pacientemente, havia uma rosa.
Contrastava com as buzinas, sirenes e concreto da vida urbana.
Vida que se esvaía rapidamente.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Mãe Guerra
Mamãe, fizemos tudo que nos pediu.
Porque nós te amamos.
Destruímos o que nossas mãos construíram.
Sublinhamos com terra os corpos dos nossos iguais.
Cuspimos nossas bombas das nuvens.
Porém, não me sinto mais feliz, mamãe.
Não pude deixar de pensar nas crianças.
Não pude me controlar ao imaginar as vozinhas infantis que não tiveram nem ao menos a chance de implorar por misericórdia.
Qual a próxima mãe que vai chorar?
Bom, como você nos aconselhou mamãe, isso não tem importância, não é mesmo?
Podemos manchar de vermelho a História,
não é necessário ter ciência de que atiramos no próprio espelho.
Só importa o coração que levamos no peito.
O resto é apenas o resto.
Uma coleção de sonhos.
Uma coleção de vidas.
Nada demais. Apenas algo para se arrancar.
Vamos continuar tomando futuros, mamãe.
Porque nós te amamos.
E porque somos sábios.
Sábios na terra da ignorância.
Porque nós te amamos.
Destruímos o que nossas mãos construíram.
Sublinhamos com terra os corpos dos nossos iguais.
Cuspimos nossas bombas das nuvens.
Porém, não me sinto mais feliz, mamãe.
Não pude deixar de pensar nas crianças.
Não pude me controlar ao imaginar as vozinhas infantis que não tiveram nem ao menos a chance de implorar por misericórdia.
Qual a próxima mãe que vai chorar?
Bom, como você nos aconselhou mamãe, isso não tem importância, não é mesmo?
Podemos manchar de vermelho a História,
não é necessário ter ciência de que atiramos no próprio espelho.
Só importa o coração que levamos no peito.
O resto é apenas o resto.
Uma coleção de sonhos.
Uma coleção de vidas.
Nada demais. Apenas algo para se arrancar.
Vamos continuar tomando futuros, mamãe.
Porque nós te amamos.
E porque somos sábios.
Sábios na terra da ignorância.
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