Chovia e suas roupas estavam ensopadas. Os cabelos grudavam na testa e os lábios se tocavam umedecidos pela água que caía das estrelas. Abraçados de pé em uma praça, ele olhou para sua outra parte e ela sorria. Aquilo era mágico! A noite sorria com ela e por um momento ele não conseguia mais ouvir o barulho das gotas tocando o solo ou as folhas das árvores que se agitavam por todo o redor. Apertou-a contra seu corpo e ouviu não um par de corações ritmados, mas apenas um.
Era exatamente o que sentia.
Unidade.
Tocá-la era se tocar, vê-la sorrir era estar feliz, amá-la era estar vivo.
Perguntou-a se preferiria esconder-se da torrente impetuosa que provinha das nuvens e sua resposta não poderia ser mais perfeita. Ela preferia manter-se ali, ainda que fatigada, unida a ele. De tal modo a confundir-se ambos.
A torna-se um.
Sorriram, felizes com a simplicidade da vida. O desejo veemente presente era satisfeito com a mistura de algumas gotas de chuva, olhares e mãos entrelaçadas. Era a combinação para a excelência.
Olharam-se paciente e carinhosamente por uma eternidade ou mais e se beijaram.
Naquele momento, não havia altura ou profundidade, medo, dor, presente ou futuro.
Predominava a certeza de que nada os separaria.
Pois eram mais do que mil.
Eram Um.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
Viver
Sou cego, tenho câncer e sei que vou morrer.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.
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