Minhas estrelas ainda sentem-se sendo tocadas.
Eu poderia usar minhas melhores palavras para lhe contar sobre a beleza da luz.
Conseguiria encontrar mil maneiras de me apaixonar de novo enquanto mantenho meus olhos pacientemente focados em você.
Não me importaria de estar errado; verdades perfeitas precisam ser imperfeitas.
Poderia ser a memória de todos os cheiros que você já sentiu.
Pintaria e emolduraria o som da sua risada para lembrar a mim mesmo que meus ombros não estão tão pesados.
Pensaria em dezenas de novas promessas para tirar esse olhar do seu rosto.
Mas acho que estou sem tempo.
O Tempo deu um beijo de despedida nas expectativas.
E deixou apenas os sonhos.
Os que estão morrendo.
Mas ainda assim, sonhos.
E enquanto descubro que esse não é o Paraíso do qual eles falam e tento colocar séculos entre meus medos e minhas fantasias, mantenho-me de mãos dadas.
Com os sonhos.
Que, descubro, não estão mais morrendo.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
A Pedra
Não tente entender. Aceite.
Meu pai era um mistério para mim. Um mistério valioso. Trancado em seu escritório a maior parte do tempo, eu o admirava silenciosamente e com olhinhos brilhantes. Ele era invencível. Impassível. O homem mais poderoso da Terra em meus olhos. Porém, era alguém que eu não conseguia encontrar. Não era de muitos sorrisos e carícias, e eu sentia que não era capaz de alcançá-lo por trás de toda aquela barreira. Não conseguia agradá-lo. Mas ainda o admirava.
Uma tarde de sol, vi brilhar em uma vitrine um globo de cristal do tamanho de um ovo. Achei a peça fabulosa no momento em que a bebi com meus olhos. Achei que havia encontrado o presente perfeito para meu pai. Soava adequado. Aquela pedra brilhante para o herói dos meus devaneios. Poderia imaginá-la reluzindo em alguma estante em casa, bem posicionada para que pudesse irradiar luz e cor. Significaria o meu reconhecimento pela grandeza de meu pai. Sorri e decidi conseguir dinheiro para a compra.
O tilintar de moedas significava sorrisos para mim. Sempre encontrava um jeito de consegui-las, pouco a pouco, para não despertar suspeitas. Por dias, os pequenos furtos em minha casa.
Uma manhã iluminada, fui até a loja e comprei o cristal. Eu era puro sorriso quando o levantei para o sol e o vi brilhar suas muitas cores. Era perfeito. Mantive a pedra gelada fechada de maneira segura na mão dentro do bolso. Assoviava alegremente enquanto voltava para casa. Ao chegar, encontrei meu pai a caminho do escritório. Eu o chamei. Ele se virou meio contrariado e eu, timidamente, tirei a pedra do bolso e lhe estendi. Ele olhou e seus olhos eram uma mistura que eu não entendia. Surpresa. Impaciência. Ele pegou a pedra calmamente e sorriu para mim. Abraçou-me e disse que iria guardá-la. Fora meu momento de glória. Mesmo que tenha durado apenas alguns segundos.
Dias mais tarde, encontrei meu presente. Jogado. Em uma caixa. Uma caixa com coisas velhas e desnecessárias. Não havia prateleiras ao sol para a minha pedra. Não havia orgulho em exibi-la. Só o esquecimento de uma caixa empoeirada. Eu a recolhi magoado e procurei por meu pai. Achando-o no escritório, perguntei:
— Papai, onde está minha pedra?
Sem tirar os olhos do computador ele sentenciou minha tristeza:
— Que pedra?
Eu caminhei para meu quarto sentindo a dura superfície do cristal em meus dedos. Meu pai jamais percebera que eu o tinha removido da caixa. Nunca deu falta dele. Eu jamais atravessaria as barreiras e encontraria o interior do meu herói. Jamais o alcançaria para tocá-lo com afeto. Mas continuaria a admirá-lo.
Sem entender. Apenas aceitando.
Meu pai era um mistério para mim. Um mistério valioso. Trancado em seu escritório a maior parte do tempo, eu o admirava silenciosamente e com olhinhos brilhantes. Ele era invencível. Impassível. O homem mais poderoso da Terra em meus olhos. Porém, era alguém que eu não conseguia encontrar. Não era de muitos sorrisos e carícias, e eu sentia que não era capaz de alcançá-lo por trás de toda aquela barreira. Não conseguia agradá-lo. Mas ainda o admirava.
Uma tarde de sol, vi brilhar em uma vitrine um globo de cristal do tamanho de um ovo. Achei a peça fabulosa no momento em que a bebi com meus olhos. Achei que havia encontrado o presente perfeito para meu pai. Soava adequado. Aquela pedra brilhante para o herói dos meus devaneios. Poderia imaginá-la reluzindo em alguma estante em casa, bem posicionada para que pudesse irradiar luz e cor. Significaria o meu reconhecimento pela grandeza de meu pai. Sorri e decidi conseguir dinheiro para a compra.
O tilintar de moedas significava sorrisos para mim. Sempre encontrava um jeito de consegui-las, pouco a pouco, para não despertar suspeitas. Por dias, os pequenos furtos em minha casa.
Uma manhã iluminada, fui até a loja e comprei o cristal. Eu era puro sorriso quando o levantei para o sol e o vi brilhar suas muitas cores. Era perfeito. Mantive a pedra gelada fechada de maneira segura na mão dentro do bolso. Assoviava alegremente enquanto voltava para casa. Ao chegar, encontrei meu pai a caminho do escritório. Eu o chamei. Ele se virou meio contrariado e eu, timidamente, tirei a pedra do bolso e lhe estendi. Ele olhou e seus olhos eram uma mistura que eu não entendia. Surpresa. Impaciência. Ele pegou a pedra calmamente e sorriu para mim. Abraçou-me e disse que iria guardá-la. Fora meu momento de glória. Mesmo que tenha durado apenas alguns segundos.
Dias mais tarde, encontrei meu presente. Jogado. Em uma caixa. Uma caixa com coisas velhas e desnecessárias. Não havia prateleiras ao sol para a minha pedra. Não havia orgulho em exibi-la. Só o esquecimento de uma caixa empoeirada. Eu a recolhi magoado e procurei por meu pai. Achando-o no escritório, perguntei:
— Papai, onde está minha pedra?
Sem tirar os olhos do computador ele sentenciou minha tristeza:
— Que pedra?
Eu caminhei para meu quarto sentindo a dura superfície do cristal em meus dedos. Meu pai jamais percebera que eu o tinha removido da caixa. Nunca deu falta dele. Eu jamais atravessaria as barreiras e encontraria o interior do meu herói. Jamais o alcançaria para tocá-lo com afeto. Mas continuaria a admirá-lo.
Sem entender. Apenas aceitando.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A ingenuidade da minha ingênua idade
Mamãe, consegue ver a lua nos meus olhos cansados?
Tudo tem sido tão difícil e doloroso. Crescer não fora tão agradável como eu imaginara. O que, naturalmente, posso atribuir à minha ingenuidade. Ninguém disse que seria fácil. As noites nos têm tirado o sono. E os dias nos têm tomado o calor do sol. Parece contraditório agora. Parece fora do lugar.
Mamãe, as coisas não são mais como costumavam ser. E essas mudanças repentinas me tiram o fôlego da vida. Não posso me acostumar. A ideia de amanhecer e descobrir que perdi algo desesperadamente valioso é maligna. Um convite para lágrimas. Não deveríamos perder o que não podemos substituir. Não soa justo.
Mas acho que isso é a vida, não é mesmo mamãe? A soma das perdas.
E como isso termina? Vencemos e somos aplaudidos no final? Há sorrisos, músicas e cor? Só gostaria que não nos apagassem. A nossa juventude. O nosso brilho. Com a sombra cinzenta dos sentimentos. E das decepções.
Mamãe, ainda consegue ver a lua em meus olhos cansados?
Tudo tem sido tão difícil e doloroso. Crescer não fora tão agradável como eu imaginara. O que, naturalmente, posso atribuir à minha ingenuidade. Ninguém disse que seria fácil. As noites nos têm tirado o sono. E os dias nos têm tomado o calor do sol. Parece contraditório agora. Parece fora do lugar.
Mamãe, as coisas não são mais como costumavam ser. E essas mudanças repentinas me tiram o fôlego da vida. Não posso me acostumar. A ideia de amanhecer e descobrir que perdi algo desesperadamente valioso é maligna. Um convite para lágrimas. Não deveríamos perder o que não podemos substituir. Não soa justo.
Mas acho que isso é a vida, não é mesmo mamãe? A soma das perdas.
E como isso termina? Vencemos e somos aplaudidos no final? Há sorrisos, músicas e cor? Só gostaria que não nos apagassem. A nossa juventude. O nosso brilho. Com a sombra cinzenta dos sentimentos. E das decepções.
Mamãe, ainda consegue ver a lua em meus olhos cansados?
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Suicídio
O vento sopra frio aqui em cima.
Foi a primeira coisa que pensei ao subir, e uma das últimas que pensaria. Estava em uma ponte que descrevia arcos em suas laterais, no topo de um deles. A baixo havia uma distância de uns trinta metros entre mim e a negra superfície de um largo rio. As lágrimas haviam secado no meu rosto. Minhas mãos tremiam violentamente, uma mistura de frio e temor. O medo não significava nada agora. Aquilo haveria de ser feito. Era jovem demais, mas minha curta vida havia me tornado cansada. Cansada das decepções. Cansada da frieza do mundo. Cansada de estar sempre cansada.
As ruas e a ponte estavam vazias e silenciosas nesta madrugada. Olhei para cima. O céu mostrava-me todas as suas estrelas com seu hálito frio em meus cabelos. Tudo parecia mais bonito agora. Tudo parecia mais poético. Uma bela noite para se morrer.
Ouvi passos. Um jovem caminhava pela ponte. Cabeça baixa, mãos nos bolsos, despreocupadamente. Vinha em minha direção. Parou alguns metros abaixo de onde me encontrava e encostou-se no corrimão da ponte.
Olhei mais uma vez para o rio onde planejava me jogar.
— Está uma bela noite, não é?
Aquela voz me assustou. Era calma, gentil e possuía algo peculiar; era uma voz apaixonada.
Olhei para o garoto. Ele não havia sequer me olhado, mas sabia que eu estava ali. Mirava o rio e da altura que eu estava não conseguia ver seu rosto ou sua expressão.
Tirou alguns amendoins do bolso e começou a comê-los descontraído.
Voltei meus pensamentos para meu mórbido objetivo. Sentia-me vazia. Sozinha. E não estava disposta a continuar com aquela sensação esmagadora.
— É engraçado, o céu. As estrelas morrem e se apagam, mas nós ainda as vemos brilhar.
Do que ele estava falando? Comecei a me sentir irritada pelos comentários desnecessários. Era quase um desrespeito ao fim da minha existência. Eu o olhei e, pela primeira vez, ele retribuiu o olhar. Olhou-me profundamente nos olhos e embora seu olhar fosse sereno, parecia capaz de me radiografar. Era lindo. Absolutamente.
— Você é muito bonita. Mesmo com o que planeja fazer — indicou com a cabeça a ponte e o rio — é algo terrível e belo.
— Quem é você? — Minha voz estava fraca e rude. Definitivamente aquilo havia se tornado desrespeitoso.
Ele pareceu não ouvir minha pergunta. Os amendoins haviam acabado e ele olhava interessado para algumas teias de aranha.
— Tenho fome. Gostaria de...
— Será que poderia parar? — Agora estava decididamente irritada. — Estou em um momento importante da minha vida, ou do fim dela, será que poderia respeitar isto?
Minha voz tremia um pouco. Não estava acostumada a ser rude com estranhos, mas isso não importava mais.
— Oh, sim. Isto. — Mais uma vez indicando a ponte e o rio. Sua voz continuava calma e doce. — Quer mesmo se matar?
— Você não está aqui para tentar me fazer mudar de ideia, certo? Porque isso não lhe diz respeito. — Disse secamente.
— Oh, não, não. — Disse ele encostando-se confortavelmente na parede e olhando para mim. — Se quer se matar, por mim tudo bem. Só acho justo que seja uma decisão absolutamente consciente.
Ele parecia inteiramente à vontade, como se falar de minhas possibilidades de vida fosse o mesmo que comentar o tempo.
— É consciente. — Apressei-me a dizer, perfurando-o com os olhos.
— Oh, mesmo? Então sabe que estará cometendo diversos homicídios, certo?
— O que quer dizer? — O desdém na minha voz tentava encobrir a surpresa que aquelas palavras haviam causado.
— Você tirará a sua vida e sugará a vida de muitos outros. Matará aqueles que te amam. Presenteará com dor seus pais, familiares e amigos mais íntimos. Acha isso justo?
— Viver em meio a toda podridão do mundo? Tenho o direito de escolher se quero isso ou não. Não soa justo?
— Deixa-me ver se entendi: para acabar com o seu sofrimento você o dará para as pessoas que mais te amam? — Sua voz não era acusadora nem soava interessada em uma possível resposta. Mas ele havia me pegado de guarda baixa. Estava agora pensando em minha família, amigos e todas as vozes que disseram que me amavam. Eu não as ouviria de novo.
— Você está errada. — Ele olhava para a noite.
— O que quer dizer?
— Está errada estando aí em cima. Não é o seu lugar.
— Eu não mereço estar viva. — Estava chorando agora. — Sou só mais uma péssima pessoa em um péssimo mundo. Eu... — As palavras fugiram em meio à angústia.
— Você está errada. — Concluiu com um meio sorriso nos lábios.
Aquele estranho estava conseguindo mudar meus desejos. Queria ir para casa. Queria o familiar. Queria ser abraçada. E ele parecia perceber isso.
— Existem muitas maneiras de resolver as coisas. E esta não é uma delas. Agora —encarou-me com aquele olhar penetrante — eu tenho fome. Conheço um lugar legal, gostaria que viesse comigo. — Agora ele sorria.
Estava perplexa. Eu estava no alto de uma ponte, pensando em finalizar minha vida, e aquele agradável estranho continuava falando em comer. Tremendo e por alguma razão que eu mesma desconhecia, desci vagarosamente do arco. Ele parecia satisfeito, mas nada surpreso com minha decisão. Deu-me a mão direita para descer e ficamos perto um do outro. Ele sorria e era absurdamente bonito.
— Uma boa decisão. — Pensei que estava se referindo ao convite de comer quando acrescentou: — A decisão de viver.
Ele parecia mais centrado agora. Culto, profundo. Como se todo aquele encontro tivesse sido proposital.
— Por que eu? — Perguntei encarando-o. — Por que impedir a mim de fazer o que planejava? Por que me permitir viver?
Ele abriu um largo sorriso e disse com sua voz apaixonada:
— Por que não você?
Foi a primeira coisa que pensei ao subir, e uma das últimas que pensaria. Estava em uma ponte que descrevia arcos em suas laterais, no topo de um deles. A baixo havia uma distância de uns trinta metros entre mim e a negra superfície de um largo rio. As lágrimas haviam secado no meu rosto. Minhas mãos tremiam violentamente, uma mistura de frio e temor. O medo não significava nada agora. Aquilo haveria de ser feito. Era jovem demais, mas minha curta vida havia me tornado cansada. Cansada das decepções. Cansada da frieza do mundo. Cansada de estar sempre cansada.
As ruas e a ponte estavam vazias e silenciosas nesta madrugada. Olhei para cima. O céu mostrava-me todas as suas estrelas com seu hálito frio em meus cabelos. Tudo parecia mais bonito agora. Tudo parecia mais poético. Uma bela noite para se morrer.
Ouvi passos. Um jovem caminhava pela ponte. Cabeça baixa, mãos nos bolsos, despreocupadamente. Vinha em minha direção. Parou alguns metros abaixo de onde me encontrava e encostou-se no corrimão da ponte.
Olhei mais uma vez para o rio onde planejava me jogar.
— Está uma bela noite, não é?
Aquela voz me assustou. Era calma, gentil e possuía algo peculiar; era uma voz apaixonada.
Olhei para o garoto. Ele não havia sequer me olhado, mas sabia que eu estava ali. Mirava o rio e da altura que eu estava não conseguia ver seu rosto ou sua expressão.
Tirou alguns amendoins do bolso e começou a comê-los descontraído.
Voltei meus pensamentos para meu mórbido objetivo. Sentia-me vazia. Sozinha. E não estava disposta a continuar com aquela sensação esmagadora.
— É engraçado, o céu. As estrelas morrem e se apagam, mas nós ainda as vemos brilhar.
Do que ele estava falando? Comecei a me sentir irritada pelos comentários desnecessários. Era quase um desrespeito ao fim da minha existência. Eu o olhei e, pela primeira vez, ele retribuiu o olhar. Olhou-me profundamente nos olhos e embora seu olhar fosse sereno, parecia capaz de me radiografar. Era lindo. Absolutamente.
— Você é muito bonita. Mesmo com o que planeja fazer — indicou com a cabeça a ponte e o rio — é algo terrível e belo.
— Quem é você? — Minha voz estava fraca e rude. Definitivamente aquilo havia se tornado desrespeitoso.
Ele pareceu não ouvir minha pergunta. Os amendoins haviam acabado e ele olhava interessado para algumas teias de aranha.
— Tenho fome. Gostaria de...
— Será que poderia parar? — Agora estava decididamente irritada. — Estou em um momento importante da minha vida, ou do fim dela, será que poderia respeitar isto?
Minha voz tremia um pouco. Não estava acostumada a ser rude com estranhos, mas isso não importava mais.
— Oh, sim. Isto. — Mais uma vez indicando a ponte e o rio. Sua voz continuava calma e doce. — Quer mesmo se matar?
— Você não está aqui para tentar me fazer mudar de ideia, certo? Porque isso não lhe diz respeito. — Disse secamente.
— Oh, não, não. — Disse ele encostando-se confortavelmente na parede e olhando para mim. — Se quer se matar, por mim tudo bem. Só acho justo que seja uma decisão absolutamente consciente.
Ele parecia inteiramente à vontade, como se falar de minhas possibilidades de vida fosse o mesmo que comentar o tempo.
— É consciente. — Apressei-me a dizer, perfurando-o com os olhos.
— Oh, mesmo? Então sabe que estará cometendo diversos homicídios, certo?
— O que quer dizer? — O desdém na minha voz tentava encobrir a surpresa que aquelas palavras haviam causado.
— Você tirará a sua vida e sugará a vida de muitos outros. Matará aqueles que te amam. Presenteará com dor seus pais, familiares e amigos mais íntimos. Acha isso justo?
— Viver em meio a toda podridão do mundo? Tenho o direito de escolher se quero isso ou não. Não soa justo?
— Deixa-me ver se entendi: para acabar com o seu sofrimento você o dará para as pessoas que mais te amam? — Sua voz não era acusadora nem soava interessada em uma possível resposta. Mas ele havia me pegado de guarda baixa. Estava agora pensando em minha família, amigos e todas as vozes que disseram que me amavam. Eu não as ouviria de novo.
— Você está errada. — Ele olhava para a noite.
— O que quer dizer?
— Está errada estando aí em cima. Não é o seu lugar.
— Eu não mereço estar viva. — Estava chorando agora. — Sou só mais uma péssima pessoa em um péssimo mundo. Eu... — As palavras fugiram em meio à angústia.
— Você está errada. — Concluiu com um meio sorriso nos lábios.
Aquele estranho estava conseguindo mudar meus desejos. Queria ir para casa. Queria o familiar. Queria ser abraçada. E ele parecia perceber isso.
— Existem muitas maneiras de resolver as coisas. E esta não é uma delas. Agora —encarou-me com aquele olhar penetrante — eu tenho fome. Conheço um lugar legal, gostaria que viesse comigo. — Agora ele sorria.
Estava perplexa. Eu estava no alto de uma ponte, pensando em finalizar minha vida, e aquele agradável estranho continuava falando em comer. Tremendo e por alguma razão que eu mesma desconhecia, desci vagarosamente do arco. Ele parecia satisfeito, mas nada surpreso com minha decisão. Deu-me a mão direita para descer e ficamos perto um do outro. Ele sorria e era absurdamente bonito.
— Uma boa decisão. — Pensei que estava se referindo ao convite de comer quando acrescentou: — A decisão de viver.
Ele parecia mais centrado agora. Culto, profundo. Como se todo aquele encontro tivesse sido proposital.
— Por que eu? — Perguntei encarando-o. — Por que impedir a mim de fazer o que planejava? Por que me permitir viver?
Ele abriu um largo sorriso e disse com sua voz apaixonada:
— Por que não você?
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