sábado, 1 de janeiro de 2011

Viver

Sou cego, tenho câncer e sei que vou morrer.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.

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