terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Princípio de Existência

O verde era assustadoramente bonito de se ver à noite. Era diferente de todo o concreto das cidades com o qual tinha me acostumado. Descia por um gramado silencioso e vazio, às margens de uma cidade que podia ser vista ao longe. A grama era gostosa quando pisada. Não me lembrava da última vez que havia feito isso.
Eu caminhava na direção de um ponto luminoso que via à frente. A luz era atraente, como um ímã. Ao aproximar-me, foi tomando forma, mostrando-se uma menina extraordinariamente bonita. Brincava, distraída, com uma rosa, sentada no chão. Olhou-me e, por alguma razão, naquele momento eu soube. Não se tratava de uma menina. Era uma estrela. Possuía o brilho poético de muitas gerações. Possuía graça. Brindou-me com um sorriso triste e sentei-me ao seu lado. A rosa girava entre seus dedos. Vez por outra lançava olhares magoados na direção da cidade que brilhava ao longe. Era possível sentir a vida pulsando em suas ruas, com seus carros e sua agitação.
— Isso me deixa triste.
A voz lembrava-me água correndo em riachos. Ela circundou o jardim com os olhos, como que para se explicar. Seus olhos pousavam em pontos coloridos espalhados pelo jardim. Lixo. Arrastou os olhos na direção da imunda nuvem cinzenta que pairava permanentemente a cima da cidade. Mais lixo.
— Estão apagando a vida. O céu. Quase não se pode ver mais as estrelas — disse com sua voz pura.
— Você é meio ambientalista, não é mesmo? — Comentei sorrindo.
— Só um ser humano não seria.
Senti-me envergonhado, pois sabia que era verdade. Não fazíamos nada além de entulhar o mundo com assombrosa rapidez. E éramos muito bons no que fazíamos. Fui invadido por uma série de sentimentos que pareciam emanar da estrela ao meu lado. Senti que nos escondíamos atrás de promessas de melhoria de vida enquanto, na verdade, respirávamos morte e soprávamos a vida pro alto. Olhei perdido para a cidade maculada e me perguntei o que era vida. A estrela pareceu sentir.
— Feche seus olhos. Vou lhe mostrar o que é vida.
Estendeu-me sua mão brilhante e eu a segurei de olhos fechados. Uma brisa correu pela grama e encobriu o cheiro imundo do lixo por um instante. Trazia o aroma de terra molhada, grama recém cortada, e flores selvagens. Pensei ter ouvido o som de rios correndo e pássaros cantando. Desejei ver campos de trigo e comer frutas no cacho. Com os olhos fechados vi gramados sem embalagens plásticas, rios sem latinhas metálicas flutuando. As nuvens ainda eram apenas sinais de chuva, e não mais sinais de morte. Senti saudade daquilo. Saudade de algo que quase não existia mais. Algo que muitas gerações jamais conheceriam. A estrela soltou minha mão com leveza. Parecia ainda mais bonita e mais pura. Olhou-me nos olhos. Tive a sensação que me olhava a alma.
— O tempo dará um beijo de adeus no mundo — disse com uma profunda tristeza em cada nota da sua voz. Estendeu-me a mão e me presenteou com a rosa com a qual estivera brincando. — Adeus.

Mexi-me na cama e acordei.
Havia tido um sonho estranho.
Na mesa ao lado da cama, deitada pacientemente, havia uma rosa.
Contrastava com as buzinas, sirenes e concreto da vida urbana.
Vida que se esvaía rapidamente.

2 comentários:

  1. caralho iarlen, não sei nem oq falar
    UHASUAHSHASHSUSHUHS
    meu sonho é q vc escreva um livro, dps q eu ler ele posso até morrer, q vou morrer feliz u_ú

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  2. Cara, você me surpreende cada vez mais. O que a estrela mostrou é o que eu sempre imagino como meu lugar feliz. kkkkkk'

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