domingo, 27 de junho de 2010

Carta Militar

Minha mais querida,
Eu tenho sentindo muito sua falta, desde a última noite que segurei suas mãos. Tenho tentado manter especialmente essa noite na memória, e a manterei por muito tempo. Suas cartas têm me mantido aquecido, têm me ajudado a suportar as tempestades e os gritos ensurdecedores. Essa guerra tem tornado as coisas piores para todos.
Eu desejaria que isso tudo acabasse, desejaria que, depois de todo esse tempo eu voltasse para casa, voltasse para você.
Ainda estou pacientemente olhando sua foto. Nunca havia me sentindo tão sozinho em toda a minha vida e seu sorriso impresso naquele pedaço de papel tem me arrastado para um lugar melhor.
Eles dizem que tudo está acabando, mas eu duvido muito. Ainda posso ouvir as bombas caindo. Ainda posso sentir a terra tremer. E tenho medo. Por mais otimista que eu tente ser, tenho medo de não a ver mais.
Não é justo que essa seja minha carta de despedida. Mas depois de todo esse tempo, tenho duvidado se há justiça. Tenho duvidado se há algo para mim depois que eu me for. Depois de ter arrancado sangue de meus iguais. Depois de ter presenteado várias mães com o desespero da perda. Deve haver um paraíso para pessoas que viram o que eu vi. Tem de haver um lugar melhor para os que passaram pelo que eu passei.
Eu continuo pensando em voltar para você. Fico me perguntando se isso acontecerá, se viveremos uma vida sã e normal. Oh, tem sido um tempo longo! Tenho estado longe por muito tempo. Eu nunca imaginei que pudesse fazer tanta falta para alguém.
Você tem sido tudo de mais importante para mim. Tem me feito sentir paz em uma vida só de guerra. Tenho respirado nossas memórias enquanto toda essa agonia e pânico vêm sugando minha sanidade e fé.
Eu continuo pensando em você, querida.
Eu continuo desejando estar em casa com você.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tudo vai ficar bem

Senti um toque delicado e abri os olhos. A manhã era fria. Ou se tornou fria. Eu não saberia dizer. Estava entorpecido pelo sono e era cedo demais para ser acordado. Com uma careta passeei preguiçosamente pelo quarto com os olhos. Minha mãe olhava-me. Com ternura.
— Aquela sua amiga que estava internada, o que houve com ela?
A pergunta não fazia o menor sentido, muito menos àquela hora da manhã.
— Ela não estava bem, precisou ir para o hospital... Mas está tudo bem, você sabe disso, mãe. — ainda estava sonolento quando respondi com a voz arrastada.
— Ela morreu.
Não conseguiria descrever o efeito daquelas duas palavras, nem como tudo mudaria a partir delas. Porém, sempre pensei nelas como água fria. Elas caíram na minha frente e arrancaram de mim todo meu sono. Estava completamente acordado, e havia algo impedindo minha voz de sair. Não fui capaz de perguntar se era verdade. Não fui capaz de verbalizar nenhum tipo de pergunta. O olhar de compaixão da minha mãe sentenciava a terrível verdade.
Levantei-me para me vestir. Embora soubesse que era real, intimamente esperava que tudo não passasse de uma piada obscena. Desci as escadas para a cálida atmosfera.
Caminhava a passos apressados por ruas vazias. A neblina parecia se adequar a mórbida manhã. Não me sentia triste. Não sentia nada. Não ainda. Afinal, aquilo tudo poderia ser um tremendo mal-entendido. Eu a encontraria, veria seu sorriso. Ela me diria que esteve me esperando, que sabia que eu viria. Eu respiraria aliviado e diria algo que a fizesse rir.
Ao fim da rua, o cemitério.
Lotado. Pessoas na parte de dentro, nas ruas e calçadas. Estudantes em sua maioria. Os rostos a me olhar expressavam compaixão, antecipando minha dor. Alguns vieram e me abraçaram com palavras que tinha por objetivo serem confortantes, mas soavam vazias.
— Você quer vê-la? — O sussurro de alguém.
Eu não sabia. Mas, naturalmente, precisava ser feito. Subi as escadas em direção à pequena capela.
Uma caixa de madeira com um precioso corpo dentro. Algumas velas. Pessoas de pé. Pessoas sentadas. Frio. Gemidos. E lágrimas. Muitas lágrimas.
Aproximei-me. Precisava vê-la, não me importava como. Olhei com relutância. Seu rosto continuava lindo, os traços delicados, a expressão serena. Poderia estar dormindo, não fosse pelo algodão nas narinas e a palidez.
Não pude suportar mais. Não em pé, com ela deitada ao meu lado.
Chorei.
Sentia falta do familiar, da normalidade. Queria que o tempo voltasse. Desejei ouvir sua voz rouca, voltar para casa caminhando novamente. Uma última chance para uma última dança. Gostaria de ter dito adeus.
Permiti que minhas lágrimas a tocassem. Um último presente vindo de dentro de mim. O nó na minha garganta parecia decidido a me enforcar. Não podia continuar ali. Não me permiti olhá-la uma segunda vê. Saí para a fria atmosfera da manhã.
Mais abraços, mas àquela altura eu não os via mais. Não havia mais nada. O dia havia se transformado em um céu branco e névoa pálida. Vazio.
As palavras que acompanhavam os abraços pareciam utópicas agora.
Tudo vai ficar bem.
Eu me sentia inútil. Pequeno. Minha amiga se fora e não havia caverna, buraco ou fundo de mar onde eu poderia me esconder e esperar que aquilo tudo passasse.
Tudo vai ficar bem.
Minha ideologia e fé enfraqueceram. Ficará tudo bem? Diga isso para o aidético em fase terminal, para a mãe que perdeu o filho para as drogas ou sofreu um aborto natural indesejado. Diga isso para a mãe velando sua filha nova demais para cair.
Tudo vai ficar bem.
Tiraram um pedaço de mim. Não sabia para onde ir, o que fazer ou nos olhos de quem olhar a partir dali. A manhã continuaria fria. Eu continuaria cometendo meus erros como se o fim só chegasse para os outros. As pessoas continuariam a viver e o mundo ainda giraria. Mas algumas coisas jamais seriam as mesmas. Para mim, para os estudantes, para aquela família que sentiria eternamente o vazio em casa.
Céus, eu desejo realmente que tudo fique bem.




(Sinto sua falta, Rhanna.)