Eu caminhei.
Com as pernas de um paralítico.
Subiram o prado para encontrar céu e quietude. Um em pé e o outro sentado. Era lindo ali. A relva rasteira tinha cor de ouro e o céu os envolvia com sua infinidade azul. Admiraram a paisagem por um instante. O topo do mundo. Era agradável de imaginar.
Cadeira e pernas se moveram um pouco e avaliaram ao redor. Um amplo espaço aberto margeado apenas por ávores distantes. Céu azul com sol brilhante. Perfeito para sonhar.
Tiraram os sapatos e apenas um par de pés sentiu a terra quente e o mato que acariciava. O dono deles perguntou: "Está pronto?" Houve uma troca de sorrisos.
Ele começou a empurrar a cadeira. Seu ocupante sentiu os fios de cabelo se moverem de encontro com a brisa. Sua cadeira aumentou a velocidade e ele fechou os olhos. Mais rápido, pensou. Abriu os braços sentindo-os em atrito com o vento. Seus cabelos, agora descontrolados, dançavam em sua testa. Com alegria.
Ouviu os passos do amigo que o empurrava e, de olhos fechados, permitiu-se imaginar que eram seus pés a tocar o chão com firmeza. Podia sentir a terra por entre seus dedos, saborear cada passada rápida, cada troca de perna. Não conseguiu conter os sorrisos. Aquilo era ótimo! Seu coração estava acelerado e ele ouviu os passos do amigo — seus passos — ficando mais rápidos e mais rápidos. Dois irmãos. Apenas correndo. Apenas vivos.
Podia sentir as pernas se cansando, as pequenas pedras ferindo-lhe os pés a cada passada. Oh, a dor era maravilhosa! Significava sentir, significava viver.
Gargalhou, de olhos fechados e braços abertos. O vento diminuiu e a velocidade também, até pararem. Ofegavam e sorriam. Beberam amizade e respiraram vida por um momento de silêncio.
— Sabe, eu agradeço a Deus todos os dias — referia-se à sua cadeira e situação. — Por ter sido comigo. Pois sei que posso suportar. Mas não suportaria se isto acontecesse a algum amigo. Melhor que seja comigo.
Silêncio e reflexão.
Desfrutaram do céu e da paz e naquele momentou ficou claro.
Nada poderia impedir um espírito livre de se manter de pé, dignamente.
Nada.
Para meu amigo Cícero.
sábado, 23 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Milagre
— Sua filha vai morrer — disse o médico tentando pôr algum sentimento em suas palavras clínicas. — Ela precisa de um novo coração. Hoje ainda.
A mãe não queria ouvir aquelas palavras. Precisava de ar. Soltou-se do marido e dirigiu-se para a saída do consultório. O ar estava frio. Não conseguia escutar as buzinas. Os passos nas calçadas. As lágrimas em seu rosto. Tudo se resumia a agonia e uma dificuldade incrível de respirar. Embassada pelas lágrimas ela viu um jovem parar para olhá-la soluçar. Ele se aproximou. Tinha olhos tristes. Profundos. Como um túnel. Ele a perguntou o que havia de errado. Ela manteve-se em seu pranto silencioso. Ele se compadeceu dela e sentou-se ao seu lado numa declaração muda de que queria ajudar. Mantiveram-se em silêncio e seus olhos se encontraram. Angústia e preocupação.
— Minha filhinha precisa de um coração hoje ou não resistirá. E é tão injusto, ela é tão pequenina e amável — falou sem desespero. — Eu e meu marido somos incompatíveis devido a idade e é tão difícil e... — As palavras se perderam.
O rapaz a olhava com seus olhos tristes.
— Qual a idade dela? — Perguntou.
— Cinco — respondeu a mulher com a voz embargada.
— Posso vê-la?
A mulher o olhou sem entender.
— Gostaria de conhecê-la — acrescentou com pureza.
A mãe assentiu e se dirigiu para o interior da clínica. Percorreram alguns corredores e pararam diante de uma porta. A mãe secou os olhos antes de entrar.
— Mamãe! — Ouviu-se uma vozinha delicada e sorridente.
Sobre uma cama havia uma menina miudinha de aparência doentia. Possuía alguns tubos nas veias, ligados a aparelhos. Seu rosto era magro e tinha olheiras. Porém era encantador. Emanava inocência e pureza. Como um pequeno anjo. A mãe a beijou e apresentou o jovem.
— Ela parece uma manhã de natal — ele disse sorrindo.
A criança sorriu de volta fracamente e perguntou se ele a sararia.
Houve um momento de silêncio.
Ele respondeu que sim.
Ela pegou seu dedo indicador com sua delicada mãozinha. Com gratidão.
— Eu vou sarar pessoas quando crescer — disse com seus olhinhos no fim da vida. — Mamãe diz que é difícil...
O jovem sorriu, suas mãos ainda se tocando.
— Você poderia até mesmo voar se quisesse — declarou perdido naquela inocência doce.
— Mesmo? — Os olhinhos brilhavam.
Ele assentiu rindo e virou-se para a mãe que assistia a tudo tristemente.
— Em alguns casos não há vida, mesmo com um coração pulsante — disse perdido em seus próprios fantasmas. — Você acredita em milagres?
A mulher o olhou confusa. Ele respirou fundo com os olhos fechados e acrescentou:
— Hoje parece ser um dia de milagres.
Ele rabiscou algo apressadamente em um papel, deixou na mesinha e saiu da sala.
— Ele foi buscar meu coração novo, mamãe?
A mãe sorriu dolorosamente desejando ter aquela inocência esperançosa. Passou o tempo com a menina. Não conseguia tirar os olhos daquela beleza infantil que se esvaía. Ela se sentia pequena. Inútil. E o arrastar das horas aumentavam aquela sensação esmagadora. A menina adormeceu e a mãe se arrastou até a janela, para o entardecer.
As horas pareciam zombar dela e aquele silêncio era incômodo. A porta do quarto se abriu e o marido da mulher entrou chorando, acompanhado de médicos e enfermeiros apressados.
— Há um coração — disse o pai soluçando. — Eles encontraram um coração.
A mulher não acreditava no que ouvia. Chorou e abraçou o marido enquanto removiam sua filha para a cirurgia. Uma enfermeira sorriu e disse:
— Ela vai viver para sarar pessoas.
A mãe chorou ainda mais. A criança abriu fracamente os olhos.
— O moço trouxe meu coração novo, não é mesmo mamãe?
Então ela se lembrou. Voltou correndo para o quarto e procurou em cima da mesinha. Abriu o papel e encontrou uma caligrafia bonita.
Sempre quis fazer algo grande.
Para algumas almas os dias nunca têm cor.
Hoje, finalmente, me sinto vivo. Como nunca.
Pois posso criar sorrisos.
Perpetue a manhã de natal.
Ensine-a todos os dias a acreditar que ela é capaz de voar.
P.S. Você acredita em milagres?
A mulher apertou o pequeno bilhete contra o peito e chorou em agradecimento.
Não por haver seres humanos.
Mas por ainda haver humanidade neles.
E a milagrosa esperança.
A mãe não queria ouvir aquelas palavras. Precisava de ar. Soltou-se do marido e dirigiu-se para a saída do consultório. O ar estava frio. Não conseguia escutar as buzinas. Os passos nas calçadas. As lágrimas em seu rosto. Tudo se resumia a agonia e uma dificuldade incrível de respirar. Embassada pelas lágrimas ela viu um jovem parar para olhá-la soluçar. Ele se aproximou. Tinha olhos tristes. Profundos. Como um túnel. Ele a perguntou o que havia de errado. Ela manteve-se em seu pranto silencioso. Ele se compadeceu dela e sentou-se ao seu lado numa declaração muda de que queria ajudar. Mantiveram-se em silêncio e seus olhos se encontraram. Angústia e preocupação.
— Minha filhinha precisa de um coração hoje ou não resistirá. E é tão injusto, ela é tão pequenina e amável — falou sem desespero. — Eu e meu marido somos incompatíveis devido a idade e é tão difícil e... — As palavras se perderam.
O rapaz a olhava com seus olhos tristes.
— Qual a idade dela? — Perguntou.
— Cinco — respondeu a mulher com a voz embargada.
— Posso vê-la?
A mulher o olhou sem entender.
— Gostaria de conhecê-la — acrescentou com pureza.
A mãe assentiu e se dirigiu para o interior da clínica. Percorreram alguns corredores e pararam diante de uma porta. A mãe secou os olhos antes de entrar.
— Mamãe! — Ouviu-se uma vozinha delicada e sorridente.
Sobre uma cama havia uma menina miudinha de aparência doentia. Possuía alguns tubos nas veias, ligados a aparelhos. Seu rosto era magro e tinha olheiras. Porém era encantador. Emanava inocência e pureza. Como um pequeno anjo. A mãe a beijou e apresentou o jovem.
— Ela parece uma manhã de natal — ele disse sorrindo.
A criança sorriu de volta fracamente e perguntou se ele a sararia.
Houve um momento de silêncio.
Ele respondeu que sim.
Ela pegou seu dedo indicador com sua delicada mãozinha. Com gratidão.
— Eu vou sarar pessoas quando crescer — disse com seus olhinhos no fim da vida. — Mamãe diz que é difícil...
O jovem sorriu, suas mãos ainda se tocando.
— Você poderia até mesmo voar se quisesse — declarou perdido naquela inocência doce.
— Mesmo? — Os olhinhos brilhavam.
Ele assentiu rindo e virou-se para a mãe que assistia a tudo tristemente.
— Em alguns casos não há vida, mesmo com um coração pulsante — disse perdido em seus próprios fantasmas. — Você acredita em milagres?
A mulher o olhou confusa. Ele respirou fundo com os olhos fechados e acrescentou:
— Hoje parece ser um dia de milagres.
Ele rabiscou algo apressadamente em um papel, deixou na mesinha e saiu da sala.
— Ele foi buscar meu coração novo, mamãe?
A mãe sorriu dolorosamente desejando ter aquela inocência esperançosa. Passou o tempo com a menina. Não conseguia tirar os olhos daquela beleza infantil que se esvaía. Ela se sentia pequena. Inútil. E o arrastar das horas aumentavam aquela sensação esmagadora. A menina adormeceu e a mãe se arrastou até a janela, para o entardecer.
As horas pareciam zombar dela e aquele silêncio era incômodo. A porta do quarto se abriu e o marido da mulher entrou chorando, acompanhado de médicos e enfermeiros apressados.
— Há um coração — disse o pai soluçando. — Eles encontraram um coração.
A mulher não acreditava no que ouvia. Chorou e abraçou o marido enquanto removiam sua filha para a cirurgia. Uma enfermeira sorriu e disse:
— Ela vai viver para sarar pessoas.
A mãe chorou ainda mais. A criança abriu fracamente os olhos.
— O moço trouxe meu coração novo, não é mesmo mamãe?
Então ela se lembrou. Voltou correndo para o quarto e procurou em cima da mesinha. Abriu o papel e encontrou uma caligrafia bonita.
Sempre quis fazer algo grande.
Para algumas almas os dias nunca têm cor.
Hoje, finalmente, me sinto vivo. Como nunca.
Pois posso criar sorrisos.
Perpetue a manhã de natal.
Ensine-a todos os dias a acreditar que ela é capaz de voar.
P.S. Você acredita em milagres?
A mulher apertou o pequeno bilhete contra o peito e chorou em agradecimento.
Não por haver seres humanos.
Mas por ainda haver humanidade neles.
E a milagrosa esperança.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Porre Universal
O homem estava irritado. Irritadíssimo. Não lembrava-se do motivo. Tratando-se de homens sérios e responsáveis como ele, havia a imensa possibilidade de ser algo insignificante como o botão da camisa que descosturou, algo dito pela namorada ou ambas as coisas. O fato é que ele colocara uma carranca e declarara guerra irremediável contra o mundo.
Caminhava odiando o céu que escurecia e os postes que se acendiam com lentidão. Entrou na primeira porta que encontrou e notou que — por coincidência e improbabilidade tratando-se de homens estressados — era um bar.
Detestou as conversas alegres e as vozes altas. Lançou alguns olhares duros. E dirigiu-se ao balcão. Sentando-se, pediu um drinque, o qual bebeu de um gole.
Tinha sido um dia difícil; pedira mais um drinque.
Havia uma música odiosa tocando; pedira outro drinque.
Estava ligeiramente bêbado e pedira mais um.
Uma mulher gritou algo em algum lugar e o assustou, fazendo-o quase derrubar o conteúdo do seu copo. Decidiu que era melhor virar o copo rapidamente antes que algo sério pudesse acontecer à bebida. Em seguida tomou um outro drinque para seguir o primeiro e verificar se estava tudo bem. Olhou para as duas mulheres embaçadas que gritaram e sorriu bebadamente. Enviou um terceiro drinque para saber porque o segundo não havia dado notícias do primeiro e um quarto para dar apoio moral ao último.
Abraçou algumas pessoas, cantou, sorriu para algumas paredes, pediu uma dose para a viagem e caminhou cambaleante para a saída.
Estava fresco e silencioso, contrastando com o interior do bar. Ele debateu mentalmente uma explicação física para o miraculoso fato de que aquele chão se movia sozinho. Tocou o botão que faltava em sua camisa e lembrou-se do motivo que o levara ali.
Olhou para o céu absurdamente estrelado. E subitamente ele viu. Teve a terrível consciência do tamanho do Universo. O espaço entre um braço e o outro da Galáxia e o número estonteante de estrelas nela. Viu os planetas conhecidos e a imensidão entre eles, embora fossem considerados planetas próximos. Precisava-se de meses, às vezes anos, para viajar de um para o outro, mesmo em velocidades absurdas. E se deu conta de que aquela era apenas uma galáxia. Uma miudinha. Havia centenas de outras, de tamanhos indescritíveis, com infinidades de estrelas e planetas. Ele viu cada uma delas, até as mais distantes, onde nem a imaginação humana era capaz de alcançar. Vislumbrou cada sol. Cada lua. Cada dimensão do Universo. As explosões, as supernovas.
Sentiu-se mal. Inútil. Pequeno. A consciência da imensidão e magnitude de tudo era esmagadora. Tocou o botão solto da camisa e sentiu-se pior. Fútil. Preocupava-se com detalhes desnecessários sem notar a vida que pulsava infinitamente a seu redor. Aquilo era deprimente. Virou o último copo que havia trazido para fora do bar pensando na experiência que estava tendo. Era algo único. Um privilégio. Infelizmente naquele momento seu cérebro parece ter decidido que era demais. O homem cambaleou e desmaiou.
Da magnitude da experiência transformadora restaria apenas uma dor de cabeça astronômica.
Caminhava odiando o céu que escurecia e os postes que se acendiam com lentidão. Entrou na primeira porta que encontrou e notou que — por coincidência e improbabilidade tratando-se de homens estressados — era um bar.
Detestou as conversas alegres e as vozes altas. Lançou alguns olhares duros. E dirigiu-se ao balcão. Sentando-se, pediu um drinque, o qual bebeu de um gole.
Tinha sido um dia difícil; pedira mais um drinque.
Havia uma música odiosa tocando; pedira outro drinque.
Estava ligeiramente bêbado e pedira mais um.
Uma mulher gritou algo em algum lugar e o assustou, fazendo-o quase derrubar o conteúdo do seu copo. Decidiu que era melhor virar o copo rapidamente antes que algo sério pudesse acontecer à bebida. Em seguida tomou um outro drinque para seguir o primeiro e verificar se estava tudo bem. Olhou para as duas mulheres embaçadas que gritaram e sorriu bebadamente. Enviou um terceiro drinque para saber porque o segundo não havia dado notícias do primeiro e um quarto para dar apoio moral ao último.
Abraçou algumas pessoas, cantou, sorriu para algumas paredes, pediu uma dose para a viagem e caminhou cambaleante para a saída.
Estava fresco e silencioso, contrastando com o interior do bar. Ele debateu mentalmente uma explicação física para o miraculoso fato de que aquele chão se movia sozinho. Tocou o botão que faltava em sua camisa e lembrou-se do motivo que o levara ali.
Olhou para o céu absurdamente estrelado. E subitamente ele viu. Teve a terrível consciência do tamanho do Universo. O espaço entre um braço e o outro da Galáxia e o número estonteante de estrelas nela. Viu os planetas conhecidos e a imensidão entre eles, embora fossem considerados planetas próximos. Precisava-se de meses, às vezes anos, para viajar de um para o outro, mesmo em velocidades absurdas. E se deu conta de que aquela era apenas uma galáxia. Uma miudinha. Havia centenas de outras, de tamanhos indescritíveis, com infinidades de estrelas e planetas. Ele viu cada uma delas, até as mais distantes, onde nem a imaginação humana era capaz de alcançar. Vislumbrou cada sol. Cada lua. Cada dimensão do Universo. As explosões, as supernovas.
Sentiu-se mal. Inútil. Pequeno. A consciência da imensidão e magnitude de tudo era esmagadora. Tocou o botão solto da camisa e sentiu-se pior. Fútil. Preocupava-se com detalhes desnecessários sem notar a vida que pulsava infinitamente a seu redor. Aquilo era deprimente. Virou o último copo que havia trazido para fora do bar pensando na experiência que estava tendo. Era algo único. Um privilégio. Infelizmente naquele momento seu cérebro parece ter decidido que era demais. O homem cambaleou e desmaiou.
Da magnitude da experiência transformadora restaria apenas uma dor de cabeça astronômica.
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