terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um anjo no quarto

Ele era jovem. Mas já desejava escapar deste mundo. A decisão já havia sido tomada, embora o pensamento do ato fosse indesejado. Era claro que era a mais pura demonstração de egoísmo, mas a esmagadora sensação de deslocamento que sentia sobrepunha-se sobre a razão. Subiu as escadas para o apartamento vagarosamente. Cada passada era bela, única. Última. Girou a maçaneta e entrou no aposento escuro. Estava praticamente vazio, exceto por uma prateleira apinhada de livros e um colchão no chão. A luz da rua entrava pela janela aberta e pousava sobre o corpo dela. O lençol se esparramava por cima do corpo despreocupadamente. Uma das mãos descansava no chão, enquanto a outra abraçava o travesseiro no lado vazio do colchão, onde ele deveria estar deitado. Onde era seu lugar. O rosto dela estava claro, tranqüilo. Puro. Parecia emanar luz. Ele desenhou com o olhar cada linha da sobrancelha, dos olhos fechados, os cabelos negros que flutuavam sobre o travesseiro. Chegou mais perto. Ela era extraordinariamente bonita. Ele a tocou levemente o rosto e sentiu vontade de aninhar-se a ela. Necessidade dela. Desejou por um momento que ela abrisse os olhos, porque queria que ela olhasse nos seus. Ela se moveu preguiçosamente e colocou sua mão na dele, para mantê-la em seu rosto. Ele tentou levantar-se para não acordá-la.
— Oh, não ouse me deixar — sua voz sorria suavemente.
A voz. Era vida. Ele a olhou e ela sorria sonolentamente. Por um momento ele pensou que aquele pedido não era algo que precisava ser verbalizado. Não havia realmente um mundo. Não havia tristeza, ou medos. Havia apenas aquele sorriso. Apenas aquela voz. Ele acariciou os cabelos negros e sentiu-se completo pela primeira vez no dia. Percebeu que a amava na essência, na plenitude. E que não era algo do qual se poderia abrir mão. Não conseguia se lembrar porque desejava desistir de tudo apenas instantes atrás.
— Gostaria de um pouco de chá. Mas tomaremos amanhã — os olhos estavam fechados e a voz serena.
Ele concordou com um sorriso e preparou-se para se deitar ao lado dela. Sentia que poderia ficar ali para sempre descobrindo novas maneiras de se apaixonar por ela de novo.
Oh, haveria um amanhã.
Porque aquele amor.
Era viver.

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