Passei um grande tempo tentando não me deparar com o certo. Afinal, a vida é uma só. Não queria me dar o luxo de desperdiçar um precioso e irreversível tempo me preocupando com o que posso ou não fazer. Tudo me era lícito. A diversão me era lícita. Os bons momentos me eram lícitos. Quebrar sentimentos alheios me era lícito. Sugar a felicidade de outras pessoas me era absurdamente normal. Era um egoísta admitido. E me orgulhava disso. Orgulhava-me de não me preocupar. Orgulhava-me de não sentir. Puro egoísmo, eu sei. Os dias me mostraram que eu não era um vitorioso. Não havia alguém para abraçar quando estava triste. Não havia alguém para dar o melhor de mim. Para cuidar. Para ser cuidado. Não havia felicidade. Só a noite solitária, por fim.
O cruel amadurecimento mudara alguns conceitos em mim. Forjou caráter e me deu personalidade. Princípios. Passei a me preocupar com os sentimentos, com as pessoas. Percebi que um derramar de lágrimas queima. Rasga por dentro. E que não é justo uma pessoa roubar a felicidade de outra. Não é justo presentear com uma noite de angústia e dor. Tornei-me uma pessoa melhor, enfim. Não sentia mais o egocentrismo pesado que enchia meus pulmões. Pensei que seria melhor, que esse comportamento alegraria o meu universo. E descobri algo triste. Amar pode ser doloroso. Preocupar-se e cuidar pode ser um fardo pesado. Muitas vezes as pessoas não querem ser cuidadas. Não querem que se preocupem. Muitas vezes querem apenas diversão. É pesado dar o melhor de si e receber apenas migalhas em troca. As pessoas não querem a excelência do sentimento, e a melhor pessoa que você possa ser. Estão dispostas a trocar toda a imensidão da sua bondade por algo pura e completamente fútil. Porque tudo lhes é lícito. Porque o tempo é irreparável. Mudei porque sentia-me sozinho, sinto-me sozinho porque mudei.
Fui derrotado.
Outra vez.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Está Anoitecendo
Acordei.
Todavia não me sentia acordado. Talvez pelo fato de ter-me levantado de uma cadeira de madeira. Talvez pelo fato de que a cadeira se encontrava em uma sala escura e vazia de sons. O fato era que sentia que algo estava errado. A sensação não era objetiva e alarmante, era apenas como um sussurro no fundo da mente.
O silêncio era tão total e absoluto que deixava de ser natural.
A sala era pequena, como uma cabana de madeira. Uma luz opaca entrava por uma janela. Do lado de fora havia um jardim cinzento, como uma tarde fria de inverno. Duas crianças brincavam em balanços, sorrindo abertamente. Havia algo estranho nos sorrisos daquelas menininhas que demorei alguns momentos para perceber; não possuíam nenhum traço de inocência. Eram obscenos, quase malignos. Olhavam fixamente para as árvores ao longe no jardim. Sorrindo.
Olhando novamente para a sala, notei que agora havia uma mesa com um papel em cima. Atravessei a sala em direção à mesa, notando que meus passos não produziam nenhum ruído. No papel estava escrito em uma caligrafia conhecida com algo que lembrava carvão:
“Está anoitecendo, meu amor. Está anoitecendo.”
Aquelas palavras me perturbaram e soltei o papel com veemência.
Olhei de novo para fora e agora só havia uma menina no balanço, mas sem balançar. Em contrapartida o outro balanço vazio continuava a subir e descer no ar como se houvesse uma criança ali o utilizando. Não havia mais sorrisos. Ela encarava-me, a expressão vazia de emoção, impassível. Terrível aquele olhar. Como se pudesse enxergar minha alma e não fosse satisfatório o fato de que meu coração batia.
Caminhei até a porta da cabana e a abri.
Saí não para um jardim, mas para uma rua comercial. Havia prédios, lojas e carros estacionados. Abandonados. Estava frio e ventava. O silêncio era um zumbido no ouvido. Andei pela calçada olhando para dentro de lojas, todas vazias. O céu era cinzento e chuvoso, como um entardecer tristonho. De rua em rua, comecei a ser invadido pelo desejo de ver alguma outra pessoa. Um dos carros vazios estava com o rádio ligado. O som soava estranho, como se não pertencesse àquele lugar livre de ruídos, regido apenas por aquele zumbido que era a ausência absoluta de sons. Um comentarista dizia: “O clima não mudará muito para esse fim de semana, a frente fria que está chegando é um pouco desanimadora se você está completamente sozinho e está anoitecendo...”
Continuei andando, por saguões vazios e ruas desertas. O dia cinzento estava escurecendo e eu ainda não havia encontrado outro ser vivo. Era terrível a sensação de estar sozinho em um lugar tão grande, ante o iminente escurecer que não tardaria. Em um outdoor, no alto de um prédio havia as palavras “Está anoitecendo.”
Comecei a correr, olhando desesperadamente em todos os carros, em todas as ruas. Comecei a sentir frio e a fazer um esforço maior para deslocar-me. Tentava e não conseguia mover as pernas com a velocidade desejada. Olhando para baixo percebi que estava correndo dentro de uma água verde e asquerosa, e não conseguia ganhar velocidade. Ao perceber onde estava, comecei a afogar. A água sugava-me para seu interior, sugava-me o fôlego e a vida. Debatia-me tentando voltar à superfície. O esforço estava me deixando exausto e meu corpo começou a se conformar com a ideia de que seria levado, e enfim tudo acabaria...
Acordei.
Levantei-me do chão frio e empoeirado de uma cabana de madeira. A respiração estava ofegante e o braço formigava um pouco por ter dormido em cima dele. Tinha uma sensação desagradável que julgava ser resultado do pesadelo que havia tido. Esfreguei os olhos cansados e olhei para a única fonte de luz que penetrava o cômodo. Uma janela.
Caminhei até ela, com a ligeira percepção de que não produzia sons ao andar. Lá fora, no cinzento dia, havia dois balanços vazios, subindo e descendo no ar, como que seus ocupantes não pudessem ser vistos. Sentia frio. Olhei para trás e me choquei.
Uma criança estava na sala. Usava um tradicional vestido e tinha os olhos vendados. Estava em pé e sua cabeça voltava-se para mim. Sorriu quando me viu, como se, mesmo vendada me pudesse ver. Aquele sorriso fez meu coração parar de bombear por alguns segundos. Era um sorriso sedento. Isento de qualquer sinal de infância. Era um sorriso perverso.
Sentia que ela era capaz de me ver, sentia que ela via muito mais que eu ousaria admitir. Um sussurro pernicioso:
“Já anoiteceu.”
Senti-me enjoado, como se fosse vomitar. Cambaleei até a porta de entrada da cabana e sai para um jardim frio. O vento sussurrava coisas inteligíveis com sons que lembravam gemidos. Fui capaz de ver as altas árvores ao longe antes de ter a visão enegrecida subitamente. Coloquei a mão no rosto e descobri que uma venda incapacitava-me de enxergar. Tropecei e caí, sentindo demasiado desespero que não sabia explicar. Tentei tirar o pano negro do rosto, mas quanto mais tentava mais ele apertava, ferindo meus olhos e rosto. Sentia a face ser pressionada e uma dor incrível parecia que iria estourar minha cabeça enquanto ouvia sussurros e risadas infantis...
Acordei...
Todavia não me sentia acordado. Talvez pelo fato de ter-me levantado de uma cadeira de madeira. Talvez pelo fato de que a cadeira se encontrava em uma sala escura e vazia de sons. O fato era que sentia que algo estava errado. A sensação não era objetiva e alarmante, era apenas como um sussurro no fundo da mente.
O silêncio era tão total e absoluto que deixava de ser natural.
A sala era pequena, como uma cabana de madeira. Uma luz opaca entrava por uma janela. Do lado de fora havia um jardim cinzento, como uma tarde fria de inverno. Duas crianças brincavam em balanços, sorrindo abertamente. Havia algo estranho nos sorrisos daquelas menininhas que demorei alguns momentos para perceber; não possuíam nenhum traço de inocência. Eram obscenos, quase malignos. Olhavam fixamente para as árvores ao longe no jardim. Sorrindo.
Olhando novamente para a sala, notei que agora havia uma mesa com um papel em cima. Atravessei a sala em direção à mesa, notando que meus passos não produziam nenhum ruído. No papel estava escrito em uma caligrafia conhecida com algo que lembrava carvão:
“Está anoitecendo, meu amor. Está anoitecendo.”
Aquelas palavras me perturbaram e soltei o papel com veemência.
Olhei de novo para fora e agora só havia uma menina no balanço, mas sem balançar. Em contrapartida o outro balanço vazio continuava a subir e descer no ar como se houvesse uma criança ali o utilizando. Não havia mais sorrisos. Ela encarava-me, a expressão vazia de emoção, impassível. Terrível aquele olhar. Como se pudesse enxergar minha alma e não fosse satisfatório o fato de que meu coração batia.
Caminhei até a porta da cabana e a abri.
Saí não para um jardim, mas para uma rua comercial. Havia prédios, lojas e carros estacionados. Abandonados. Estava frio e ventava. O silêncio era um zumbido no ouvido. Andei pela calçada olhando para dentro de lojas, todas vazias. O céu era cinzento e chuvoso, como um entardecer tristonho. De rua em rua, comecei a ser invadido pelo desejo de ver alguma outra pessoa. Um dos carros vazios estava com o rádio ligado. O som soava estranho, como se não pertencesse àquele lugar livre de ruídos, regido apenas por aquele zumbido que era a ausência absoluta de sons. Um comentarista dizia: “O clima não mudará muito para esse fim de semana, a frente fria que está chegando é um pouco desanimadora se você está completamente sozinho e está anoitecendo...”
Continuei andando, por saguões vazios e ruas desertas. O dia cinzento estava escurecendo e eu ainda não havia encontrado outro ser vivo. Era terrível a sensação de estar sozinho em um lugar tão grande, ante o iminente escurecer que não tardaria. Em um outdoor, no alto de um prédio havia as palavras “Está anoitecendo.”
Comecei a correr, olhando desesperadamente em todos os carros, em todas as ruas. Comecei a sentir frio e a fazer um esforço maior para deslocar-me. Tentava e não conseguia mover as pernas com a velocidade desejada. Olhando para baixo percebi que estava correndo dentro de uma água verde e asquerosa, e não conseguia ganhar velocidade. Ao perceber onde estava, comecei a afogar. A água sugava-me para seu interior, sugava-me o fôlego e a vida. Debatia-me tentando voltar à superfície. O esforço estava me deixando exausto e meu corpo começou a se conformar com a ideia de que seria levado, e enfim tudo acabaria...
Acordei.
Levantei-me do chão frio e empoeirado de uma cabana de madeira. A respiração estava ofegante e o braço formigava um pouco por ter dormido em cima dele. Tinha uma sensação desagradável que julgava ser resultado do pesadelo que havia tido. Esfreguei os olhos cansados e olhei para a única fonte de luz que penetrava o cômodo. Uma janela.
Caminhei até ela, com a ligeira percepção de que não produzia sons ao andar. Lá fora, no cinzento dia, havia dois balanços vazios, subindo e descendo no ar, como que seus ocupantes não pudessem ser vistos. Sentia frio. Olhei para trás e me choquei.
Uma criança estava na sala. Usava um tradicional vestido e tinha os olhos vendados. Estava em pé e sua cabeça voltava-se para mim. Sorriu quando me viu, como se, mesmo vendada me pudesse ver. Aquele sorriso fez meu coração parar de bombear por alguns segundos. Era um sorriso sedento. Isento de qualquer sinal de infância. Era um sorriso perverso.
Sentia que ela era capaz de me ver, sentia que ela via muito mais que eu ousaria admitir. Um sussurro pernicioso:
“Já anoiteceu.”
Senti-me enjoado, como se fosse vomitar. Cambaleei até a porta de entrada da cabana e sai para um jardim frio. O vento sussurrava coisas inteligíveis com sons que lembravam gemidos. Fui capaz de ver as altas árvores ao longe antes de ter a visão enegrecida subitamente. Coloquei a mão no rosto e descobri que uma venda incapacitava-me de enxergar. Tropecei e caí, sentindo demasiado desespero que não sabia explicar. Tentei tirar o pano negro do rosto, mas quanto mais tentava mais ele apertava, ferindo meus olhos e rosto. Sentia a face ser pressionada e uma dor incrível parecia que iria estourar minha cabeça enquanto ouvia sussurros e risadas infantis...
Acordei...
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