sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Por favor

Papai Noel,
não quero mais a bicicleta que pedi.
Papai voltou a fumar.
Mamãe tem tomado remédios.
Eu a vejo sempre com olhos inchados.
Papai Noel, esqueça-se da boneca que havia pedido.
Faça-os parar de brigar.
Por favor.
A raiva deles magoa meus ouvidos.
Por favor, eu serei sempre uma boa criança.
Mas não deixe meu lar se tornar uma casa mal-assombrada.
Por favor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um anjo no quarto

Ele era jovem. Mas já desejava escapar deste mundo. A decisão já havia sido tomada, embora o pensamento do ato fosse indesejado. Era claro que era a mais pura demonstração de egoísmo, mas a esmagadora sensação de deslocamento que sentia sobrepunha-se sobre a razão. Subiu as escadas para o apartamento vagarosamente. Cada passada era bela, única. Última. Girou a maçaneta e entrou no aposento escuro. Estava praticamente vazio, exceto por uma prateleira apinhada de livros e um colchão no chão. A luz da rua entrava pela janela aberta e pousava sobre o corpo dela. O lençol se esparramava por cima do corpo despreocupadamente. Uma das mãos descansava no chão, enquanto a outra abraçava o travesseiro no lado vazio do colchão, onde ele deveria estar deitado. Onde era seu lugar. O rosto dela estava claro, tranqüilo. Puro. Parecia emanar luz. Ele desenhou com o olhar cada linha da sobrancelha, dos olhos fechados, os cabelos negros que flutuavam sobre o travesseiro. Chegou mais perto. Ela era extraordinariamente bonita. Ele a tocou levemente o rosto e sentiu vontade de aninhar-se a ela. Necessidade dela. Desejou por um momento que ela abrisse os olhos, porque queria que ela olhasse nos seus. Ela se moveu preguiçosamente e colocou sua mão na dele, para mantê-la em seu rosto. Ele tentou levantar-se para não acordá-la.
— Oh, não ouse me deixar — sua voz sorria suavemente.
A voz. Era vida. Ele a olhou e ela sorria sonolentamente. Por um momento ele pensou que aquele pedido não era algo que precisava ser verbalizado. Não havia realmente um mundo. Não havia tristeza, ou medos. Havia apenas aquele sorriso. Apenas aquela voz. Ele acariciou os cabelos negros e sentiu-se completo pela primeira vez no dia. Percebeu que a amava na essência, na plenitude. E que não era algo do qual se poderia abrir mão. Não conseguia se lembrar porque desejava desistir de tudo apenas instantes atrás.
— Gostaria de um pouco de chá. Mas tomaremos amanhã — os olhos estavam fechados e a voz serena.
Ele concordou com um sorriso e preparou-se para se deitar ao lado dela. Sentia que poderia ficar ali para sempre descobrindo novas maneiras de se apaixonar por ela de novo.
Oh, haveria um amanhã.
Porque aquele amor.
Era viver.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Princípio de Existência

O verde era assustadoramente bonito de se ver à noite. Era diferente de todo o concreto das cidades com o qual tinha me acostumado. Descia por um gramado silencioso e vazio, às margens de uma cidade que podia ser vista ao longe. A grama era gostosa quando pisada. Não me lembrava da última vez que havia feito isso.
Eu caminhava na direção de um ponto luminoso que via à frente. A luz era atraente, como um ímã. Ao aproximar-me, foi tomando forma, mostrando-se uma menina extraordinariamente bonita. Brincava, distraída, com uma rosa, sentada no chão. Olhou-me e, por alguma razão, naquele momento eu soube. Não se tratava de uma menina. Era uma estrela. Possuía o brilho poético de muitas gerações. Possuía graça. Brindou-me com um sorriso triste e sentei-me ao seu lado. A rosa girava entre seus dedos. Vez por outra lançava olhares magoados na direção da cidade que brilhava ao longe. Era possível sentir a vida pulsando em suas ruas, com seus carros e sua agitação.
— Isso me deixa triste.
A voz lembrava-me água correndo em riachos. Ela circundou o jardim com os olhos, como que para se explicar. Seus olhos pousavam em pontos coloridos espalhados pelo jardim. Lixo. Arrastou os olhos na direção da imunda nuvem cinzenta que pairava permanentemente a cima da cidade. Mais lixo.
— Estão apagando a vida. O céu. Quase não se pode ver mais as estrelas — disse com sua voz pura.
— Você é meio ambientalista, não é mesmo? — Comentei sorrindo.
— Só um ser humano não seria.
Senti-me envergonhado, pois sabia que era verdade. Não fazíamos nada além de entulhar o mundo com assombrosa rapidez. E éramos muito bons no que fazíamos. Fui invadido por uma série de sentimentos que pareciam emanar da estrela ao meu lado. Senti que nos escondíamos atrás de promessas de melhoria de vida enquanto, na verdade, respirávamos morte e soprávamos a vida pro alto. Olhei perdido para a cidade maculada e me perguntei o que era vida. A estrela pareceu sentir.
— Feche seus olhos. Vou lhe mostrar o que é vida.
Estendeu-me sua mão brilhante e eu a segurei de olhos fechados. Uma brisa correu pela grama e encobriu o cheiro imundo do lixo por um instante. Trazia o aroma de terra molhada, grama recém cortada, e flores selvagens. Pensei ter ouvido o som de rios correndo e pássaros cantando. Desejei ver campos de trigo e comer frutas no cacho. Com os olhos fechados vi gramados sem embalagens plásticas, rios sem latinhas metálicas flutuando. As nuvens ainda eram apenas sinais de chuva, e não mais sinais de morte. Senti saudade daquilo. Saudade de algo que quase não existia mais. Algo que muitas gerações jamais conheceriam. A estrela soltou minha mão com leveza. Parecia ainda mais bonita e mais pura. Olhou-me nos olhos. Tive a sensação que me olhava a alma.
— O tempo dará um beijo de adeus no mundo — disse com uma profunda tristeza em cada nota da sua voz. Estendeu-me a mão e me presenteou com a rosa com a qual estivera brincando. — Adeus.

Mexi-me na cama e acordei.
Havia tido um sonho estranho.
Na mesa ao lado da cama, deitada pacientemente, havia uma rosa.
Contrastava com as buzinas, sirenes e concreto da vida urbana.
Vida que se esvaía rapidamente.