Não tente entender. Aceite.
Meu pai era um mistério para mim. Um mistério valioso. Trancado em seu escritório a maior parte do tempo, eu o admirava silenciosamente e com olhinhos brilhantes. Ele era invencível. Impassível. O homem mais poderoso da Terra em meus olhos. Porém, era alguém que eu não conseguia encontrar. Não era de muitos sorrisos e carícias, e eu sentia que não era capaz de alcançá-lo por trás de toda aquela barreira. Não conseguia agradá-lo. Mas ainda o admirava.
Uma tarde de sol, vi brilhar em uma vitrine um globo de cristal do tamanho de um ovo. Achei a peça fabulosa no momento em que a bebi com meus olhos. Achei que havia encontrado o presente perfeito para meu pai. Soava adequado. Aquela pedra brilhante para o herói dos meus devaneios. Poderia imaginá-la reluzindo em alguma estante em casa, bem posicionada para que pudesse irradiar luz e cor. Significaria o meu reconhecimento pela grandeza de meu pai. Sorri e decidi conseguir dinheiro para a compra.
O tilintar de moedas significava sorrisos para mim. Sempre encontrava um jeito de consegui-las, pouco a pouco, para não despertar suspeitas. Por dias, os pequenos furtos em minha casa.
Uma manhã iluminada, fui até a loja e comprei o cristal. Eu era puro sorriso quando o levantei para o sol e o vi brilhar suas muitas cores. Era perfeito. Mantive a pedra gelada fechada de maneira segura na mão dentro do bolso. Assoviava alegremente enquanto voltava para casa. Ao chegar, encontrei meu pai a caminho do escritório. Eu o chamei. Ele se virou meio contrariado e eu, timidamente, tirei a pedra do bolso e lhe estendi. Ele olhou e seus olhos eram uma mistura que eu não entendia. Surpresa. Impaciência. Ele pegou a pedra calmamente e sorriu para mim. Abraçou-me e disse que iria guardá-la. Fora meu momento de glória. Mesmo que tenha durado apenas alguns segundos.
Dias mais tarde, encontrei meu presente. Jogado. Em uma caixa. Uma caixa com coisas velhas e desnecessárias. Não havia prateleiras ao sol para a minha pedra. Não havia orgulho em exibi-la. Só o esquecimento de uma caixa empoeirada. Eu a recolhi magoado e procurei por meu pai. Achando-o no escritório, perguntei:
— Papai, onde está minha pedra?
Sem tirar os olhos do computador ele sentenciou minha tristeza:
— Que pedra?
Eu caminhei para meu quarto sentindo a dura superfície do cristal em meus dedos. Meu pai jamais percebera que eu o tinha removido da caixa. Nunca deu falta dele. Eu jamais atravessaria as barreiras e encontraria o interior do meu herói. Jamais o alcançaria para tocá-lo com afeto. Mas continuaria a admirá-lo.
Sem entender. Apenas aceitando.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A ingenuidade da minha ingênua idade
Mamãe, consegue ver a lua nos meus olhos cansados?
Tudo tem sido tão difícil e doloroso. Crescer não fora tão agradável como eu imaginara. O que, naturalmente, posso atribuir à minha ingenuidade. Ninguém disse que seria fácil. As noites nos têm tirado o sono. E os dias nos têm tomado o calor do sol. Parece contraditório agora. Parece fora do lugar.
Mamãe, as coisas não são mais como costumavam ser. E essas mudanças repentinas me tiram o fôlego da vida. Não posso me acostumar. A ideia de amanhecer e descobrir que perdi algo desesperadamente valioso é maligna. Um convite para lágrimas. Não deveríamos perder o que não podemos substituir. Não soa justo.
Mas acho que isso é a vida, não é mesmo mamãe? A soma das perdas.
E como isso termina? Vencemos e somos aplaudidos no final? Há sorrisos, músicas e cor? Só gostaria que não nos apagassem. A nossa juventude. O nosso brilho. Com a sombra cinzenta dos sentimentos. E das decepções.
Mamãe, ainda consegue ver a lua em meus olhos cansados?
Tudo tem sido tão difícil e doloroso. Crescer não fora tão agradável como eu imaginara. O que, naturalmente, posso atribuir à minha ingenuidade. Ninguém disse que seria fácil. As noites nos têm tirado o sono. E os dias nos têm tomado o calor do sol. Parece contraditório agora. Parece fora do lugar.
Mamãe, as coisas não são mais como costumavam ser. E essas mudanças repentinas me tiram o fôlego da vida. Não posso me acostumar. A ideia de amanhecer e descobrir que perdi algo desesperadamente valioso é maligna. Um convite para lágrimas. Não deveríamos perder o que não podemos substituir. Não soa justo.
Mas acho que isso é a vida, não é mesmo mamãe? A soma das perdas.
E como isso termina? Vencemos e somos aplaudidos no final? Há sorrisos, músicas e cor? Só gostaria que não nos apagassem. A nossa juventude. O nosso brilho. Com a sombra cinzenta dos sentimentos. E das decepções.
Mamãe, ainda consegue ver a lua em meus olhos cansados?
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Suicídio
O vento sopra frio aqui em cima.
Foi a primeira coisa que pensei ao subir, e uma das últimas que pensaria. Estava em uma ponte que descrevia arcos em suas laterais, no topo de um deles. A baixo havia uma distância de uns trinta metros entre mim e a negra superfície de um largo rio. As lágrimas haviam secado no meu rosto. Minhas mãos tremiam violentamente, uma mistura de frio e temor. O medo não significava nada agora. Aquilo haveria de ser feito. Era jovem demais, mas minha curta vida havia me tornado cansada. Cansada das decepções. Cansada da frieza do mundo. Cansada de estar sempre cansada.
As ruas e a ponte estavam vazias e silenciosas nesta madrugada. Olhei para cima. O céu mostrava-me todas as suas estrelas com seu hálito frio em meus cabelos. Tudo parecia mais bonito agora. Tudo parecia mais poético. Uma bela noite para se morrer.
Ouvi passos. Um jovem caminhava pela ponte. Cabeça baixa, mãos nos bolsos, despreocupadamente. Vinha em minha direção. Parou alguns metros abaixo de onde me encontrava e encostou-se no corrimão da ponte.
Olhei mais uma vez para o rio onde planejava me jogar.
— Está uma bela noite, não é?
Aquela voz me assustou. Era calma, gentil e possuía algo peculiar; era uma voz apaixonada.
Olhei para o garoto. Ele não havia sequer me olhado, mas sabia que eu estava ali. Mirava o rio e da altura que eu estava não conseguia ver seu rosto ou sua expressão.
Tirou alguns amendoins do bolso e começou a comê-los descontraído.
Voltei meus pensamentos para meu mórbido objetivo. Sentia-me vazia. Sozinha. E não estava disposta a continuar com aquela sensação esmagadora.
— É engraçado, o céu. As estrelas morrem e se apagam, mas nós ainda as vemos brilhar.
Do que ele estava falando? Comecei a me sentir irritada pelos comentários desnecessários. Era quase um desrespeito ao fim da minha existência. Eu o olhei e, pela primeira vez, ele retribuiu o olhar. Olhou-me profundamente nos olhos e embora seu olhar fosse sereno, parecia capaz de me radiografar. Era lindo. Absolutamente.
— Você é muito bonita. Mesmo com o que planeja fazer — indicou com a cabeça a ponte e o rio — é algo terrível e belo.
— Quem é você? — Minha voz estava fraca e rude. Definitivamente aquilo havia se tornado desrespeitoso.
Ele pareceu não ouvir minha pergunta. Os amendoins haviam acabado e ele olhava interessado para algumas teias de aranha.
— Tenho fome. Gostaria de...
— Será que poderia parar? — Agora estava decididamente irritada. — Estou em um momento importante da minha vida, ou do fim dela, será que poderia respeitar isto?
Minha voz tremia um pouco. Não estava acostumada a ser rude com estranhos, mas isso não importava mais.
— Oh, sim. Isto. — Mais uma vez indicando a ponte e o rio. Sua voz continuava calma e doce. — Quer mesmo se matar?
— Você não está aqui para tentar me fazer mudar de ideia, certo? Porque isso não lhe diz respeito. — Disse secamente.
— Oh, não, não. — Disse ele encostando-se confortavelmente na parede e olhando para mim. — Se quer se matar, por mim tudo bem. Só acho justo que seja uma decisão absolutamente consciente.
Ele parecia inteiramente à vontade, como se falar de minhas possibilidades de vida fosse o mesmo que comentar o tempo.
— É consciente. — Apressei-me a dizer, perfurando-o com os olhos.
— Oh, mesmo? Então sabe que estará cometendo diversos homicídios, certo?
— O que quer dizer? — O desdém na minha voz tentava encobrir a surpresa que aquelas palavras haviam causado.
— Você tirará a sua vida e sugará a vida de muitos outros. Matará aqueles que te amam. Presenteará com dor seus pais, familiares e amigos mais íntimos. Acha isso justo?
— Viver em meio a toda podridão do mundo? Tenho o direito de escolher se quero isso ou não. Não soa justo?
— Deixa-me ver se entendi: para acabar com o seu sofrimento você o dará para as pessoas que mais te amam? — Sua voz não era acusadora nem soava interessada em uma possível resposta. Mas ele havia me pegado de guarda baixa. Estava agora pensando em minha família, amigos e todas as vozes que disseram que me amavam. Eu não as ouviria de novo.
— Você está errada. — Ele olhava para a noite.
— O que quer dizer?
— Está errada estando aí em cima. Não é o seu lugar.
— Eu não mereço estar viva. — Estava chorando agora. — Sou só mais uma péssima pessoa em um péssimo mundo. Eu... — As palavras fugiram em meio à angústia.
— Você está errada. — Concluiu com um meio sorriso nos lábios.
Aquele estranho estava conseguindo mudar meus desejos. Queria ir para casa. Queria o familiar. Queria ser abraçada. E ele parecia perceber isso.
— Existem muitas maneiras de resolver as coisas. E esta não é uma delas. Agora —encarou-me com aquele olhar penetrante — eu tenho fome. Conheço um lugar legal, gostaria que viesse comigo. — Agora ele sorria.
Estava perplexa. Eu estava no alto de uma ponte, pensando em finalizar minha vida, e aquele agradável estranho continuava falando em comer. Tremendo e por alguma razão que eu mesma desconhecia, desci vagarosamente do arco. Ele parecia satisfeito, mas nada surpreso com minha decisão. Deu-me a mão direita para descer e ficamos perto um do outro. Ele sorria e era absurdamente bonito.
— Uma boa decisão. — Pensei que estava se referindo ao convite de comer quando acrescentou: — A decisão de viver.
Ele parecia mais centrado agora. Culto, profundo. Como se todo aquele encontro tivesse sido proposital.
— Por que eu? — Perguntei encarando-o. — Por que impedir a mim de fazer o que planejava? Por que me permitir viver?
Ele abriu um largo sorriso e disse com sua voz apaixonada:
— Por que não você?
Foi a primeira coisa que pensei ao subir, e uma das últimas que pensaria. Estava em uma ponte que descrevia arcos em suas laterais, no topo de um deles. A baixo havia uma distância de uns trinta metros entre mim e a negra superfície de um largo rio. As lágrimas haviam secado no meu rosto. Minhas mãos tremiam violentamente, uma mistura de frio e temor. O medo não significava nada agora. Aquilo haveria de ser feito. Era jovem demais, mas minha curta vida havia me tornado cansada. Cansada das decepções. Cansada da frieza do mundo. Cansada de estar sempre cansada.
As ruas e a ponte estavam vazias e silenciosas nesta madrugada. Olhei para cima. O céu mostrava-me todas as suas estrelas com seu hálito frio em meus cabelos. Tudo parecia mais bonito agora. Tudo parecia mais poético. Uma bela noite para se morrer.
Ouvi passos. Um jovem caminhava pela ponte. Cabeça baixa, mãos nos bolsos, despreocupadamente. Vinha em minha direção. Parou alguns metros abaixo de onde me encontrava e encostou-se no corrimão da ponte.
Olhei mais uma vez para o rio onde planejava me jogar.
— Está uma bela noite, não é?
Aquela voz me assustou. Era calma, gentil e possuía algo peculiar; era uma voz apaixonada.
Olhei para o garoto. Ele não havia sequer me olhado, mas sabia que eu estava ali. Mirava o rio e da altura que eu estava não conseguia ver seu rosto ou sua expressão.
Tirou alguns amendoins do bolso e começou a comê-los descontraído.
Voltei meus pensamentos para meu mórbido objetivo. Sentia-me vazia. Sozinha. E não estava disposta a continuar com aquela sensação esmagadora.
— É engraçado, o céu. As estrelas morrem e se apagam, mas nós ainda as vemos brilhar.
Do que ele estava falando? Comecei a me sentir irritada pelos comentários desnecessários. Era quase um desrespeito ao fim da minha existência. Eu o olhei e, pela primeira vez, ele retribuiu o olhar. Olhou-me profundamente nos olhos e embora seu olhar fosse sereno, parecia capaz de me radiografar. Era lindo. Absolutamente.
— Você é muito bonita. Mesmo com o que planeja fazer — indicou com a cabeça a ponte e o rio — é algo terrível e belo.
— Quem é você? — Minha voz estava fraca e rude. Definitivamente aquilo havia se tornado desrespeitoso.
Ele pareceu não ouvir minha pergunta. Os amendoins haviam acabado e ele olhava interessado para algumas teias de aranha.
— Tenho fome. Gostaria de...
— Será que poderia parar? — Agora estava decididamente irritada. — Estou em um momento importante da minha vida, ou do fim dela, será que poderia respeitar isto?
Minha voz tremia um pouco. Não estava acostumada a ser rude com estranhos, mas isso não importava mais.
— Oh, sim. Isto. — Mais uma vez indicando a ponte e o rio. Sua voz continuava calma e doce. — Quer mesmo se matar?
— Você não está aqui para tentar me fazer mudar de ideia, certo? Porque isso não lhe diz respeito. — Disse secamente.
— Oh, não, não. — Disse ele encostando-se confortavelmente na parede e olhando para mim. — Se quer se matar, por mim tudo bem. Só acho justo que seja uma decisão absolutamente consciente.
Ele parecia inteiramente à vontade, como se falar de minhas possibilidades de vida fosse o mesmo que comentar o tempo.
— É consciente. — Apressei-me a dizer, perfurando-o com os olhos.
— Oh, mesmo? Então sabe que estará cometendo diversos homicídios, certo?
— O que quer dizer? — O desdém na minha voz tentava encobrir a surpresa que aquelas palavras haviam causado.
— Você tirará a sua vida e sugará a vida de muitos outros. Matará aqueles que te amam. Presenteará com dor seus pais, familiares e amigos mais íntimos. Acha isso justo?
— Viver em meio a toda podridão do mundo? Tenho o direito de escolher se quero isso ou não. Não soa justo?
— Deixa-me ver se entendi: para acabar com o seu sofrimento você o dará para as pessoas que mais te amam? — Sua voz não era acusadora nem soava interessada em uma possível resposta. Mas ele havia me pegado de guarda baixa. Estava agora pensando em minha família, amigos e todas as vozes que disseram que me amavam. Eu não as ouviria de novo.
— Você está errada. — Ele olhava para a noite.
— O que quer dizer?
— Está errada estando aí em cima. Não é o seu lugar.
— Eu não mereço estar viva. — Estava chorando agora. — Sou só mais uma péssima pessoa em um péssimo mundo. Eu... — As palavras fugiram em meio à angústia.
— Você está errada. — Concluiu com um meio sorriso nos lábios.
Aquele estranho estava conseguindo mudar meus desejos. Queria ir para casa. Queria o familiar. Queria ser abraçada. E ele parecia perceber isso.
— Existem muitas maneiras de resolver as coisas. E esta não é uma delas. Agora —encarou-me com aquele olhar penetrante — eu tenho fome. Conheço um lugar legal, gostaria que viesse comigo. — Agora ele sorria.
Estava perplexa. Eu estava no alto de uma ponte, pensando em finalizar minha vida, e aquele agradável estranho continuava falando em comer. Tremendo e por alguma razão que eu mesma desconhecia, desci vagarosamente do arco. Ele parecia satisfeito, mas nada surpreso com minha decisão. Deu-me a mão direita para descer e ficamos perto um do outro. Ele sorria e era absurdamente bonito.
— Uma boa decisão. — Pensei que estava se referindo ao convite de comer quando acrescentou: — A decisão de viver.
Ele parecia mais centrado agora. Culto, profundo. Como se todo aquele encontro tivesse sido proposital.
— Por que eu? — Perguntei encarando-o. — Por que impedir a mim de fazer o que planejava? Por que me permitir viver?
Ele abriu um largo sorriso e disse com sua voz apaixonada:
— Por que não você?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Derrotado
Passei um grande tempo tentando não me deparar com o certo. Afinal, a vida é uma só. Não queria me dar o luxo de desperdiçar um precioso e irreversível tempo me preocupando com o que posso ou não fazer. Tudo me era lícito. A diversão me era lícita. Os bons momentos me eram lícitos. Quebrar sentimentos alheios me era lícito. Sugar a felicidade de outras pessoas me era absurdamente normal. Era um egoísta admitido. E me orgulhava disso. Orgulhava-me de não me preocupar. Orgulhava-me de não sentir. Puro egoísmo, eu sei. Os dias me mostraram que eu não era um vitorioso. Não havia alguém para abraçar quando estava triste. Não havia alguém para dar o melhor de mim. Para cuidar. Para ser cuidado. Não havia felicidade. Só a noite solitária, por fim.
O cruel amadurecimento mudara alguns conceitos em mim. Forjou caráter e me deu personalidade. Princípios. Passei a me preocupar com os sentimentos, com as pessoas. Percebi que um derramar de lágrimas queima. Rasga por dentro. E que não é justo uma pessoa roubar a felicidade de outra. Não é justo presentear com uma noite de angústia e dor. Tornei-me uma pessoa melhor, enfim. Não sentia mais o egocentrismo pesado que enchia meus pulmões. Pensei que seria melhor, que esse comportamento alegraria o meu universo. E descobri algo triste. Amar pode ser doloroso. Preocupar-se e cuidar pode ser um fardo pesado. Muitas vezes as pessoas não querem ser cuidadas. Não querem que se preocupem. Muitas vezes querem apenas diversão. É pesado dar o melhor de si e receber apenas migalhas em troca. As pessoas não querem a excelência do sentimento, e a melhor pessoa que você possa ser. Estão dispostas a trocar toda a imensidão da sua bondade por algo pura e completamente fútil. Porque tudo lhes é lícito. Porque o tempo é irreparável. Mudei porque sentia-me sozinho, sinto-me sozinho porque mudei.
Fui derrotado.
Outra vez.
O cruel amadurecimento mudara alguns conceitos em mim. Forjou caráter e me deu personalidade. Princípios. Passei a me preocupar com os sentimentos, com as pessoas. Percebi que um derramar de lágrimas queima. Rasga por dentro. E que não é justo uma pessoa roubar a felicidade de outra. Não é justo presentear com uma noite de angústia e dor. Tornei-me uma pessoa melhor, enfim. Não sentia mais o egocentrismo pesado que enchia meus pulmões. Pensei que seria melhor, que esse comportamento alegraria o meu universo. E descobri algo triste. Amar pode ser doloroso. Preocupar-se e cuidar pode ser um fardo pesado. Muitas vezes as pessoas não querem ser cuidadas. Não querem que se preocupem. Muitas vezes querem apenas diversão. É pesado dar o melhor de si e receber apenas migalhas em troca. As pessoas não querem a excelência do sentimento, e a melhor pessoa que você possa ser. Estão dispostas a trocar toda a imensidão da sua bondade por algo pura e completamente fútil. Porque tudo lhes é lícito. Porque o tempo é irreparável. Mudei porque sentia-me sozinho, sinto-me sozinho porque mudei.
Fui derrotado.
Outra vez.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Está Anoitecendo
Acordei.
Todavia não me sentia acordado. Talvez pelo fato de ter-me levantado de uma cadeira de madeira. Talvez pelo fato de que a cadeira se encontrava em uma sala escura e vazia de sons. O fato era que sentia que algo estava errado. A sensação não era objetiva e alarmante, era apenas como um sussurro no fundo da mente.
O silêncio era tão total e absoluto que deixava de ser natural.
A sala era pequena, como uma cabana de madeira. Uma luz opaca entrava por uma janela. Do lado de fora havia um jardim cinzento, como uma tarde fria de inverno. Duas crianças brincavam em balanços, sorrindo abertamente. Havia algo estranho nos sorrisos daquelas menininhas que demorei alguns momentos para perceber; não possuíam nenhum traço de inocência. Eram obscenos, quase malignos. Olhavam fixamente para as árvores ao longe no jardim. Sorrindo.
Olhando novamente para a sala, notei que agora havia uma mesa com um papel em cima. Atravessei a sala em direção à mesa, notando que meus passos não produziam nenhum ruído. No papel estava escrito em uma caligrafia conhecida com algo que lembrava carvão:
“Está anoitecendo, meu amor. Está anoitecendo.”
Aquelas palavras me perturbaram e soltei o papel com veemência.
Olhei de novo para fora e agora só havia uma menina no balanço, mas sem balançar. Em contrapartida o outro balanço vazio continuava a subir e descer no ar como se houvesse uma criança ali o utilizando. Não havia mais sorrisos. Ela encarava-me, a expressão vazia de emoção, impassível. Terrível aquele olhar. Como se pudesse enxergar minha alma e não fosse satisfatório o fato de que meu coração batia.
Caminhei até a porta da cabana e a abri.
Saí não para um jardim, mas para uma rua comercial. Havia prédios, lojas e carros estacionados. Abandonados. Estava frio e ventava. O silêncio era um zumbido no ouvido. Andei pela calçada olhando para dentro de lojas, todas vazias. O céu era cinzento e chuvoso, como um entardecer tristonho. De rua em rua, comecei a ser invadido pelo desejo de ver alguma outra pessoa. Um dos carros vazios estava com o rádio ligado. O som soava estranho, como se não pertencesse àquele lugar livre de ruídos, regido apenas por aquele zumbido que era a ausência absoluta de sons. Um comentarista dizia: “O clima não mudará muito para esse fim de semana, a frente fria que está chegando é um pouco desanimadora se você está completamente sozinho e está anoitecendo...”
Continuei andando, por saguões vazios e ruas desertas. O dia cinzento estava escurecendo e eu ainda não havia encontrado outro ser vivo. Era terrível a sensação de estar sozinho em um lugar tão grande, ante o iminente escurecer que não tardaria. Em um outdoor, no alto de um prédio havia as palavras “Está anoitecendo.”
Comecei a correr, olhando desesperadamente em todos os carros, em todas as ruas. Comecei a sentir frio e a fazer um esforço maior para deslocar-me. Tentava e não conseguia mover as pernas com a velocidade desejada. Olhando para baixo percebi que estava correndo dentro de uma água verde e asquerosa, e não conseguia ganhar velocidade. Ao perceber onde estava, comecei a afogar. A água sugava-me para seu interior, sugava-me o fôlego e a vida. Debatia-me tentando voltar à superfície. O esforço estava me deixando exausto e meu corpo começou a se conformar com a ideia de que seria levado, e enfim tudo acabaria...
Acordei.
Levantei-me do chão frio e empoeirado de uma cabana de madeira. A respiração estava ofegante e o braço formigava um pouco por ter dormido em cima dele. Tinha uma sensação desagradável que julgava ser resultado do pesadelo que havia tido. Esfreguei os olhos cansados e olhei para a única fonte de luz que penetrava o cômodo. Uma janela.
Caminhei até ela, com a ligeira percepção de que não produzia sons ao andar. Lá fora, no cinzento dia, havia dois balanços vazios, subindo e descendo no ar, como que seus ocupantes não pudessem ser vistos. Sentia frio. Olhei para trás e me choquei.
Uma criança estava na sala. Usava um tradicional vestido e tinha os olhos vendados. Estava em pé e sua cabeça voltava-se para mim. Sorriu quando me viu, como se, mesmo vendada me pudesse ver. Aquele sorriso fez meu coração parar de bombear por alguns segundos. Era um sorriso sedento. Isento de qualquer sinal de infância. Era um sorriso perverso.
Sentia que ela era capaz de me ver, sentia que ela via muito mais que eu ousaria admitir. Um sussurro pernicioso:
“Já anoiteceu.”
Senti-me enjoado, como se fosse vomitar. Cambaleei até a porta de entrada da cabana e sai para um jardim frio. O vento sussurrava coisas inteligíveis com sons que lembravam gemidos. Fui capaz de ver as altas árvores ao longe antes de ter a visão enegrecida subitamente. Coloquei a mão no rosto e descobri que uma venda incapacitava-me de enxergar. Tropecei e caí, sentindo demasiado desespero que não sabia explicar. Tentei tirar o pano negro do rosto, mas quanto mais tentava mais ele apertava, ferindo meus olhos e rosto. Sentia a face ser pressionada e uma dor incrível parecia que iria estourar minha cabeça enquanto ouvia sussurros e risadas infantis...
Acordei...
Todavia não me sentia acordado. Talvez pelo fato de ter-me levantado de uma cadeira de madeira. Talvez pelo fato de que a cadeira se encontrava em uma sala escura e vazia de sons. O fato era que sentia que algo estava errado. A sensação não era objetiva e alarmante, era apenas como um sussurro no fundo da mente.
O silêncio era tão total e absoluto que deixava de ser natural.
A sala era pequena, como uma cabana de madeira. Uma luz opaca entrava por uma janela. Do lado de fora havia um jardim cinzento, como uma tarde fria de inverno. Duas crianças brincavam em balanços, sorrindo abertamente. Havia algo estranho nos sorrisos daquelas menininhas que demorei alguns momentos para perceber; não possuíam nenhum traço de inocência. Eram obscenos, quase malignos. Olhavam fixamente para as árvores ao longe no jardim. Sorrindo.
Olhando novamente para a sala, notei que agora havia uma mesa com um papel em cima. Atravessei a sala em direção à mesa, notando que meus passos não produziam nenhum ruído. No papel estava escrito em uma caligrafia conhecida com algo que lembrava carvão:
“Está anoitecendo, meu amor. Está anoitecendo.”
Aquelas palavras me perturbaram e soltei o papel com veemência.
Olhei de novo para fora e agora só havia uma menina no balanço, mas sem balançar. Em contrapartida o outro balanço vazio continuava a subir e descer no ar como se houvesse uma criança ali o utilizando. Não havia mais sorrisos. Ela encarava-me, a expressão vazia de emoção, impassível. Terrível aquele olhar. Como se pudesse enxergar minha alma e não fosse satisfatório o fato de que meu coração batia.
Caminhei até a porta da cabana e a abri.
Saí não para um jardim, mas para uma rua comercial. Havia prédios, lojas e carros estacionados. Abandonados. Estava frio e ventava. O silêncio era um zumbido no ouvido. Andei pela calçada olhando para dentro de lojas, todas vazias. O céu era cinzento e chuvoso, como um entardecer tristonho. De rua em rua, comecei a ser invadido pelo desejo de ver alguma outra pessoa. Um dos carros vazios estava com o rádio ligado. O som soava estranho, como se não pertencesse àquele lugar livre de ruídos, regido apenas por aquele zumbido que era a ausência absoluta de sons. Um comentarista dizia: “O clima não mudará muito para esse fim de semana, a frente fria que está chegando é um pouco desanimadora se você está completamente sozinho e está anoitecendo...”
Continuei andando, por saguões vazios e ruas desertas. O dia cinzento estava escurecendo e eu ainda não havia encontrado outro ser vivo. Era terrível a sensação de estar sozinho em um lugar tão grande, ante o iminente escurecer que não tardaria. Em um outdoor, no alto de um prédio havia as palavras “Está anoitecendo.”
Comecei a correr, olhando desesperadamente em todos os carros, em todas as ruas. Comecei a sentir frio e a fazer um esforço maior para deslocar-me. Tentava e não conseguia mover as pernas com a velocidade desejada. Olhando para baixo percebi que estava correndo dentro de uma água verde e asquerosa, e não conseguia ganhar velocidade. Ao perceber onde estava, comecei a afogar. A água sugava-me para seu interior, sugava-me o fôlego e a vida. Debatia-me tentando voltar à superfície. O esforço estava me deixando exausto e meu corpo começou a se conformar com a ideia de que seria levado, e enfim tudo acabaria...
Acordei.
Levantei-me do chão frio e empoeirado de uma cabana de madeira. A respiração estava ofegante e o braço formigava um pouco por ter dormido em cima dele. Tinha uma sensação desagradável que julgava ser resultado do pesadelo que havia tido. Esfreguei os olhos cansados e olhei para a única fonte de luz que penetrava o cômodo. Uma janela.
Caminhei até ela, com a ligeira percepção de que não produzia sons ao andar. Lá fora, no cinzento dia, havia dois balanços vazios, subindo e descendo no ar, como que seus ocupantes não pudessem ser vistos. Sentia frio. Olhei para trás e me choquei.
Uma criança estava na sala. Usava um tradicional vestido e tinha os olhos vendados. Estava em pé e sua cabeça voltava-se para mim. Sorriu quando me viu, como se, mesmo vendada me pudesse ver. Aquele sorriso fez meu coração parar de bombear por alguns segundos. Era um sorriso sedento. Isento de qualquer sinal de infância. Era um sorriso perverso.
Sentia que ela era capaz de me ver, sentia que ela via muito mais que eu ousaria admitir. Um sussurro pernicioso:
“Já anoiteceu.”
Senti-me enjoado, como se fosse vomitar. Cambaleei até a porta de entrada da cabana e sai para um jardim frio. O vento sussurrava coisas inteligíveis com sons que lembravam gemidos. Fui capaz de ver as altas árvores ao longe antes de ter a visão enegrecida subitamente. Coloquei a mão no rosto e descobri que uma venda incapacitava-me de enxergar. Tropecei e caí, sentindo demasiado desespero que não sabia explicar. Tentei tirar o pano negro do rosto, mas quanto mais tentava mais ele apertava, ferindo meus olhos e rosto. Sentia a face ser pressionada e uma dor incrível parecia que iria estourar minha cabeça enquanto ouvia sussurros e risadas infantis...
Acordei...
domingo, 27 de junho de 2010
Carta Militar
Minha mais querida,
Eu tenho sentindo muito sua falta, desde a última noite que segurei suas mãos. Tenho tentado manter especialmente essa noite na memória, e a manterei por muito tempo. Suas cartas têm me mantido aquecido, têm me ajudado a suportar as tempestades e os gritos ensurdecedores. Essa guerra tem tornado as coisas piores para todos.
Eu desejaria que isso tudo acabasse, desejaria que, depois de todo esse tempo eu voltasse para casa, voltasse para você.
Ainda estou pacientemente olhando sua foto. Nunca havia me sentindo tão sozinho em toda a minha vida e seu sorriso impresso naquele pedaço de papel tem me arrastado para um lugar melhor.
Eles dizem que tudo está acabando, mas eu duvido muito. Ainda posso ouvir as bombas caindo. Ainda posso sentir a terra tremer. E tenho medo. Por mais otimista que eu tente ser, tenho medo de não a ver mais.
Não é justo que essa seja minha carta de despedida. Mas depois de todo esse tempo, tenho duvidado se há justiça. Tenho duvidado se há algo para mim depois que eu me for. Depois de ter arrancado sangue de meus iguais. Depois de ter presenteado várias mães com o desespero da perda. Deve haver um paraíso para pessoas que viram o que eu vi. Tem de haver um lugar melhor para os que passaram pelo que eu passei.
Eu continuo pensando em voltar para você. Fico me perguntando se isso acontecerá, se viveremos uma vida sã e normal. Oh, tem sido um tempo longo! Tenho estado longe por muito tempo. Eu nunca imaginei que pudesse fazer tanta falta para alguém.
Você tem sido tudo de mais importante para mim. Tem me feito sentir paz em uma vida só de guerra. Tenho respirado nossas memórias enquanto toda essa agonia e pânico vêm sugando minha sanidade e fé.
Eu continuo pensando em você, querida.
Eu continuo desejando estar em casa com você.
Eu tenho sentindo muito sua falta, desde a última noite que segurei suas mãos. Tenho tentado manter especialmente essa noite na memória, e a manterei por muito tempo. Suas cartas têm me mantido aquecido, têm me ajudado a suportar as tempestades e os gritos ensurdecedores. Essa guerra tem tornado as coisas piores para todos.
Eu desejaria que isso tudo acabasse, desejaria que, depois de todo esse tempo eu voltasse para casa, voltasse para você.
Ainda estou pacientemente olhando sua foto. Nunca havia me sentindo tão sozinho em toda a minha vida e seu sorriso impresso naquele pedaço de papel tem me arrastado para um lugar melhor.
Eles dizem que tudo está acabando, mas eu duvido muito. Ainda posso ouvir as bombas caindo. Ainda posso sentir a terra tremer. E tenho medo. Por mais otimista que eu tente ser, tenho medo de não a ver mais.
Não é justo que essa seja minha carta de despedida. Mas depois de todo esse tempo, tenho duvidado se há justiça. Tenho duvidado se há algo para mim depois que eu me for. Depois de ter arrancado sangue de meus iguais. Depois de ter presenteado várias mães com o desespero da perda. Deve haver um paraíso para pessoas que viram o que eu vi. Tem de haver um lugar melhor para os que passaram pelo que eu passei.
Eu continuo pensando em voltar para você. Fico me perguntando se isso acontecerá, se viveremos uma vida sã e normal. Oh, tem sido um tempo longo! Tenho estado longe por muito tempo. Eu nunca imaginei que pudesse fazer tanta falta para alguém.
Você tem sido tudo de mais importante para mim. Tem me feito sentir paz em uma vida só de guerra. Tenho respirado nossas memórias enquanto toda essa agonia e pânico vêm sugando minha sanidade e fé.
Eu continuo pensando em você, querida.
Eu continuo desejando estar em casa com você.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Tudo vai ficar bem
Senti um toque delicado e abri os olhos. A manhã era fria. Ou se tornou fria. Eu não saberia dizer. Estava entorpecido pelo sono e era cedo demais para ser acordado. Com uma careta passeei preguiçosamente pelo quarto com os olhos. Minha mãe olhava-me. Com ternura.
— Aquela sua amiga que estava internada, o que houve com ela?
A pergunta não fazia o menor sentido, muito menos àquela hora da manhã.
— Ela não estava bem, precisou ir para o hospital... Mas está tudo bem, você sabe disso, mãe. — ainda estava sonolento quando respondi com a voz arrastada.
— Ela morreu.
Não conseguiria descrever o efeito daquelas duas palavras, nem como tudo mudaria a partir delas. Porém, sempre pensei nelas como água fria. Elas caíram na minha frente e arrancaram de mim todo meu sono. Estava completamente acordado, e havia algo impedindo minha voz de sair. Não fui capaz de perguntar se era verdade. Não fui capaz de verbalizar nenhum tipo de pergunta. O olhar de compaixão da minha mãe sentenciava a terrível verdade.
Levantei-me para me vestir. Embora soubesse que era real, intimamente esperava que tudo não passasse de uma piada obscena. Desci as escadas para a cálida atmosfera.
Caminhava a passos apressados por ruas vazias. A neblina parecia se adequar a mórbida manhã. Não me sentia triste. Não sentia nada. Não ainda. Afinal, aquilo tudo poderia ser um tremendo mal-entendido. Eu a encontraria, veria seu sorriso. Ela me diria que esteve me esperando, que sabia que eu viria. Eu respiraria aliviado e diria algo que a fizesse rir.
Ao fim da rua, o cemitério.
Lotado. Pessoas na parte de dentro, nas ruas e calçadas. Estudantes em sua maioria. Os rostos a me olhar expressavam compaixão, antecipando minha dor. Alguns vieram e me abraçaram com palavras que tinha por objetivo serem confortantes, mas soavam vazias.
— Você quer vê-la? — O sussurro de alguém.
Eu não sabia. Mas, naturalmente, precisava ser feito. Subi as escadas em direção à pequena capela.
Uma caixa de madeira com um precioso corpo dentro. Algumas velas. Pessoas de pé. Pessoas sentadas. Frio. Gemidos. E lágrimas. Muitas lágrimas.
Aproximei-me. Precisava vê-la, não me importava como. Olhei com relutância. Seu rosto continuava lindo, os traços delicados, a expressão serena. Poderia estar dormindo, não fosse pelo algodão nas narinas e a palidez.
Não pude suportar mais. Não em pé, com ela deitada ao meu lado.
Chorei.
Sentia falta do familiar, da normalidade. Queria que o tempo voltasse. Desejei ouvir sua voz rouca, voltar para casa caminhando novamente. Uma última chance para uma última dança. Gostaria de ter dito adeus.
Permiti que minhas lágrimas a tocassem. Um último presente vindo de dentro de mim. O nó na minha garganta parecia decidido a me enforcar. Não podia continuar ali. Não me permiti olhá-la uma segunda vê. Saí para a fria atmosfera da manhã.
Mais abraços, mas àquela altura eu não os via mais. Não havia mais nada. O dia havia se transformado em um céu branco e névoa pálida. Vazio.
As palavras que acompanhavam os abraços pareciam utópicas agora.
Tudo vai ficar bem.
Eu me sentia inútil. Pequeno. Minha amiga se fora e não havia caverna, buraco ou fundo de mar onde eu poderia me esconder e esperar que aquilo tudo passasse.
Tudo vai ficar bem.
Minha ideologia e fé enfraqueceram. Ficará tudo bem? Diga isso para o aidético em fase terminal, para a mãe que perdeu o filho para as drogas ou sofreu um aborto natural indesejado. Diga isso para a mãe velando sua filha nova demais para cair.
Tudo vai ficar bem.
Tiraram um pedaço de mim. Não sabia para onde ir, o que fazer ou nos olhos de quem olhar a partir dali. A manhã continuaria fria. Eu continuaria cometendo meus erros como se o fim só chegasse para os outros. As pessoas continuariam a viver e o mundo ainda giraria. Mas algumas coisas jamais seriam as mesmas. Para mim, para os estudantes, para aquela família que sentiria eternamente o vazio em casa.
Céus, eu desejo realmente que tudo fique bem.
(Sinto sua falta, Rhanna.)
— Aquela sua amiga que estava internada, o que houve com ela?
A pergunta não fazia o menor sentido, muito menos àquela hora da manhã.
— Ela não estava bem, precisou ir para o hospital... Mas está tudo bem, você sabe disso, mãe. — ainda estava sonolento quando respondi com a voz arrastada.
— Ela morreu.
Não conseguiria descrever o efeito daquelas duas palavras, nem como tudo mudaria a partir delas. Porém, sempre pensei nelas como água fria. Elas caíram na minha frente e arrancaram de mim todo meu sono. Estava completamente acordado, e havia algo impedindo minha voz de sair. Não fui capaz de perguntar se era verdade. Não fui capaz de verbalizar nenhum tipo de pergunta. O olhar de compaixão da minha mãe sentenciava a terrível verdade.
Levantei-me para me vestir. Embora soubesse que era real, intimamente esperava que tudo não passasse de uma piada obscena. Desci as escadas para a cálida atmosfera.
Caminhava a passos apressados por ruas vazias. A neblina parecia se adequar a mórbida manhã. Não me sentia triste. Não sentia nada. Não ainda. Afinal, aquilo tudo poderia ser um tremendo mal-entendido. Eu a encontraria, veria seu sorriso. Ela me diria que esteve me esperando, que sabia que eu viria. Eu respiraria aliviado e diria algo que a fizesse rir.
Ao fim da rua, o cemitério.
Lotado. Pessoas na parte de dentro, nas ruas e calçadas. Estudantes em sua maioria. Os rostos a me olhar expressavam compaixão, antecipando minha dor. Alguns vieram e me abraçaram com palavras que tinha por objetivo serem confortantes, mas soavam vazias.
— Você quer vê-la? — O sussurro de alguém.
Eu não sabia. Mas, naturalmente, precisava ser feito. Subi as escadas em direção à pequena capela.
Uma caixa de madeira com um precioso corpo dentro. Algumas velas. Pessoas de pé. Pessoas sentadas. Frio. Gemidos. E lágrimas. Muitas lágrimas.
Aproximei-me. Precisava vê-la, não me importava como. Olhei com relutância. Seu rosto continuava lindo, os traços delicados, a expressão serena. Poderia estar dormindo, não fosse pelo algodão nas narinas e a palidez.
Não pude suportar mais. Não em pé, com ela deitada ao meu lado.
Chorei.
Sentia falta do familiar, da normalidade. Queria que o tempo voltasse. Desejei ouvir sua voz rouca, voltar para casa caminhando novamente. Uma última chance para uma última dança. Gostaria de ter dito adeus.
Permiti que minhas lágrimas a tocassem. Um último presente vindo de dentro de mim. O nó na minha garganta parecia decidido a me enforcar. Não podia continuar ali. Não me permiti olhá-la uma segunda vê. Saí para a fria atmosfera da manhã.
Mais abraços, mas àquela altura eu não os via mais. Não havia mais nada. O dia havia se transformado em um céu branco e névoa pálida. Vazio.
As palavras que acompanhavam os abraços pareciam utópicas agora.
Tudo vai ficar bem.
Eu me sentia inútil. Pequeno. Minha amiga se fora e não havia caverna, buraco ou fundo de mar onde eu poderia me esconder e esperar que aquilo tudo passasse.
Tudo vai ficar bem.
Minha ideologia e fé enfraqueceram. Ficará tudo bem? Diga isso para o aidético em fase terminal, para a mãe que perdeu o filho para as drogas ou sofreu um aborto natural indesejado. Diga isso para a mãe velando sua filha nova demais para cair.
Tudo vai ficar bem.
Tiraram um pedaço de mim. Não sabia para onde ir, o que fazer ou nos olhos de quem olhar a partir dali. A manhã continuaria fria. Eu continuaria cometendo meus erros como se o fim só chegasse para os outros. As pessoas continuariam a viver e o mundo ainda giraria. Mas algumas coisas jamais seriam as mesmas. Para mim, para os estudantes, para aquela família que sentiria eternamente o vazio em casa.
Céus, eu desejo realmente que tudo fique bem.
(Sinto sua falta, Rhanna.)
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