quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Pedra

Não tente entender. Aceite.
Meu pai era um mistério para mim. Um mistério valioso. Trancado em seu escritório a maior parte do tempo, eu o admirava silenciosamente e com olhinhos brilhantes. Ele era invencível. Impassível. O homem mais poderoso da Terra em meus olhos. Porém, era alguém que eu não conseguia encontrar. Não era de muitos sorrisos e carícias, e eu sentia que não era capaz de alcançá-lo por trás de toda aquela barreira. Não conseguia agradá-lo. Mas ainda o admirava.
Uma tarde de sol, vi brilhar em uma vitrine um globo de cristal do tamanho de um ovo. Achei a peça fabulosa no momento em que a bebi com meus olhos. Achei que havia encontrado o presente perfeito para meu pai. Soava adequado. Aquela pedra brilhante para o herói dos meus devaneios. Poderia imaginá-la reluzindo em alguma estante em casa, bem posicionada para que pudesse irradiar luz e cor. Significaria o meu reconhecimento pela grandeza de meu pai. Sorri e decidi conseguir dinheiro para a compra.
O tilintar de moedas significava sorrisos para mim. Sempre encontrava um jeito de consegui-las, pouco a pouco, para não despertar suspeitas. Por dias, os pequenos furtos em minha casa.
Uma manhã iluminada, fui até a loja e comprei o cristal. Eu era puro sorriso quando o levantei para o sol e o vi brilhar suas muitas cores. Era perfeito. Mantive a pedra gelada fechada de maneira segura na mão dentro do bolso. Assoviava alegremente enquanto voltava para casa. Ao chegar, encontrei meu pai a caminho do escritório. Eu o chamei. Ele se virou meio contrariado e eu, timidamente, tirei a pedra do bolso e lhe estendi. Ele olhou e seus olhos eram uma mistura que eu não entendia. Surpresa. Impaciência. Ele pegou a pedra calmamente e sorriu para mim. Abraçou-me e disse que iria guardá-la. Fora meu momento de glória. Mesmo que tenha durado apenas alguns segundos.
Dias mais tarde, encontrei meu presente. Jogado. Em uma caixa. Uma caixa com coisas velhas e desnecessárias. Não havia prateleiras ao sol para a minha pedra. Não havia orgulho em exibi-la. Só o esquecimento de uma caixa empoeirada. Eu a recolhi magoado e procurei por meu pai. Achando-o no escritório, perguntei:
— Papai, onde está minha pedra?
Sem tirar os olhos do computador ele sentenciou minha tristeza:
— Que pedra?
Eu caminhei para meu quarto sentindo a dura superfície do cristal em meus dedos. Meu pai jamais percebera que eu o tinha removido da caixa. Nunca deu falta dele. Eu jamais atravessaria as barreiras e encontraria o interior do meu herói. Jamais o alcançaria para tocá-lo com afeto. Mas continuaria a admirá-lo.
Sem entender. Apenas aceitando.

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