Senti um toque delicado e abri os olhos. A manhã era fria. Ou se tornou fria. Eu não saberia dizer. Estava entorpecido pelo sono e era cedo demais para ser acordado. Com uma careta passeei preguiçosamente pelo quarto com os olhos. Minha mãe olhava-me. Com ternura.
— Aquela sua amiga que estava internada, o que houve com ela?
A pergunta não fazia o menor sentido, muito menos àquela hora da manhã.
— Ela não estava bem, precisou ir para o hospital... Mas está tudo bem, você sabe disso, mãe. — ainda estava sonolento quando respondi com a voz arrastada.
— Ela morreu.
Não conseguiria descrever o efeito daquelas duas palavras, nem como tudo mudaria a partir delas. Porém, sempre pensei nelas como água fria. Elas caíram na minha frente e arrancaram de mim todo meu sono. Estava completamente acordado, e havia algo impedindo minha voz de sair. Não fui capaz de perguntar se era verdade. Não fui capaz de verbalizar nenhum tipo de pergunta. O olhar de compaixão da minha mãe sentenciava a terrível verdade.
Levantei-me para me vestir. Embora soubesse que era real, intimamente esperava que tudo não passasse de uma piada obscena. Desci as escadas para a cálida atmosfera.
Caminhava a passos apressados por ruas vazias. A neblina parecia se adequar a mórbida manhã. Não me sentia triste. Não sentia nada. Não ainda. Afinal, aquilo tudo poderia ser um tremendo mal-entendido. Eu a encontraria, veria seu sorriso. Ela me diria que esteve me esperando, que sabia que eu viria. Eu respiraria aliviado e diria algo que a fizesse rir.
Ao fim da rua, o cemitério.
Lotado. Pessoas na parte de dentro, nas ruas e calçadas. Estudantes em sua maioria. Os rostos a me olhar expressavam compaixão, antecipando minha dor. Alguns vieram e me abraçaram com palavras que tinha por objetivo serem confortantes, mas soavam vazias.
— Você quer vê-la? — O sussurro de alguém.
Eu não sabia. Mas, naturalmente, precisava ser feito. Subi as escadas em direção à pequena capela.
Uma caixa de madeira com um precioso corpo dentro. Algumas velas. Pessoas de pé. Pessoas sentadas. Frio. Gemidos. E lágrimas. Muitas lágrimas.
Aproximei-me. Precisava vê-la, não me importava como. Olhei com relutância. Seu rosto continuava lindo, os traços delicados, a expressão serena. Poderia estar dormindo, não fosse pelo algodão nas narinas e a palidez.
Não pude suportar mais. Não em pé, com ela deitada ao meu lado.
Chorei.
Sentia falta do familiar, da normalidade. Queria que o tempo voltasse. Desejei ouvir sua voz rouca, voltar para casa caminhando novamente. Uma última chance para uma última dança. Gostaria de ter dito adeus.
Permiti que minhas lágrimas a tocassem. Um último presente vindo de dentro de mim. O nó na minha garganta parecia decidido a me enforcar. Não podia continuar ali. Não me permiti olhá-la uma segunda vê. Saí para a fria atmosfera da manhã.
Mais abraços, mas àquela altura eu não os via mais. Não havia mais nada. O dia havia se transformado em um céu branco e névoa pálida. Vazio.
As palavras que acompanhavam os abraços pareciam utópicas agora.
Tudo vai ficar bem.
Eu me sentia inútil. Pequeno. Minha amiga se fora e não havia caverna, buraco ou fundo de mar onde eu poderia me esconder e esperar que aquilo tudo passasse.
Tudo vai ficar bem.
Minha ideologia e fé enfraqueceram. Ficará tudo bem? Diga isso para o aidético em fase terminal, para a mãe que perdeu o filho para as drogas ou sofreu um aborto natural indesejado. Diga isso para a mãe velando sua filha nova demais para cair.
Tudo vai ficar bem.
Tiraram um pedaço de mim. Não sabia para onde ir, o que fazer ou nos olhos de quem olhar a partir dali. A manhã continuaria fria. Eu continuaria cometendo meus erros como se o fim só chegasse para os outros. As pessoas continuariam a viver e o mundo ainda giraria. Mas algumas coisas jamais seriam as mesmas. Para mim, para os estudantes, para aquela família que sentiria eternamente o vazio em casa.
Céus, eu desejo realmente que tudo fique bem.
(Sinto sua falta, Rhanna.)
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BELISSIMO TEXTO.
ResponderExcluirPARABÉNS!
NÃO CONHECIA O SEU BLOG.
ACHEI REALMENTE, MUITO INTERESSANTE E TENHA A CERTEZA DE QUE VOLTAREI SEMPRE AQUI.
TAMBÉM, APROVEITO PARA CONVIDAR VOCÊ A CONHECER O MEU BLOG:
“HUMOR EM TEXTO”.
A CRÔNICA DESTA SEMANA É SOBRE UM TEMA MORTAL!
SE PUDER, CONFIRA E SE QUISER COMENTE, POIS LÁ O MAIS IMPORTANTE É O SEU COMENTÁRIO.
UM ABRAÇÃO CARIOCA!
Eu percebi, desde o primeiro momento que começei a ler esse texto, se tratava da rhanna.
ResponderExcluirDe certo jeito, mesmo não conhecendo ela tão bem, parece que revivi esse dia, revivi ele estando na sua pele.
Lembranças, guarde sempre as melhores que teve ao lado de sua amiga, foi o presente que ela deixou para você.
abraço;
belo texto!
ResponderExcluirsinto muito por sua amiga cara.
Muito, MUITO bonito.
ResponderExcluirNossa nunca vi tanto carinho vindo de vc, é como o Octavio disse guarde as boa lmebranças com carinho!
ResponderExcluirFIQUEI FELIZ EM VER COMO DESCREVEU TÂO BEM O CARINHO POR SUA AMIGA E O MODO DE COMO FICAMOS APÓS A PERDA DE ALGUÉM QUERIDA.
ResponderExcluirBJS SUA TIA .