O vento sopra frio aqui em cima.
Foi a primeira coisa que pensei ao subir, e uma das últimas que pensaria. Estava em uma ponte que descrevia arcos em suas laterais, no topo de um deles. A baixo havia uma distância de uns trinta metros entre mim e a negra superfície de um largo rio. As lágrimas haviam secado no meu rosto. Minhas mãos tremiam violentamente, uma mistura de frio e temor. O medo não significava nada agora. Aquilo haveria de ser feito. Era jovem demais, mas minha curta vida havia me tornado cansada. Cansada das decepções. Cansada da frieza do mundo. Cansada de estar sempre cansada.
As ruas e a ponte estavam vazias e silenciosas nesta madrugada. Olhei para cima. O céu mostrava-me todas as suas estrelas com seu hálito frio em meus cabelos. Tudo parecia mais bonito agora. Tudo parecia mais poético. Uma bela noite para se morrer.
Ouvi passos. Um jovem caminhava pela ponte. Cabeça baixa, mãos nos bolsos, despreocupadamente. Vinha em minha direção. Parou alguns metros abaixo de onde me encontrava e encostou-se no corrimão da ponte.
Olhei mais uma vez para o rio onde planejava me jogar.
— Está uma bela noite, não é?
Aquela voz me assustou. Era calma, gentil e possuía algo peculiar; era uma voz apaixonada.
Olhei para o garoto. Ele não havia sequer me olhado, mas sabia que eu estava ali. Mirava o rio e da altura que eu estava não conseguia ver seu rosto ou sua expressão.
Tirou alguns amendoins do bolso e começou a comê-los descontraído.
Voltei meus pensamentos para meu mórbido objetivo. Sentia-me vazia. Sozinha. E não estava disposta a continuar com aquela sensação esmagadora.
— É engraçado, o céu. As estrelas morrem e se apagam, mas nós ainda as vemos brilhar.
Do que ele estava falando? Comecei a me sentir irritada pelos comentários desnecessários. Era quase um desrespeito ao fim da minha existência. Eu o olhei e, pela primeira vez, ele retribuiu o olhar. Olhou-me profundamente nos olhos e embora seu olhar fosse sereno, parecia capaz de me radiografar. Era lindo. Absolutamente.
— Você é muito bonita. Mesmo com o que planeja fazer — indicou com a cabeça a ponte e o rio — é algo terrível e belo.
— Quem é você? — Minha voz estava fraca e rude. Definitivamente aquilo havia se tornado desrespeitoso.
Ele pareceu não ouvir minha pergunta. Os amendoins haviam acabado e ele olhava interessado para algumas teias de aranha.
— Tenho fome. Gostaria de...
— Será que poderia parar? — Agora estava decididamente irritada. — Estou em um momento importante da minha vida, ou do fim dela, será que poderia respeitar isto?
Minha voz tremia um pouco. Não estava acostumada a ser rude com estranhos, mas isso não importava mais.
— Oh, sim. Isto. — Mais uma vez indicando a ponte e o rio. Sua voz continuava calma e doce. — Quer mesmo se matar?
— Você não está aqui para tentar me fazer mudar de ideia, certo? Porque isso não lhe diz respeito. — Disse secamente.
— Oh, não, não. — Disse ele encostando-se confortavelmente na parede e olhando para mim. — Se quer se matar, por mim tudo bem. Só acho justo que seja uma decisão absolutamente consciente.
Ele parecia inteiramente à vontade, como se falar de minhas possibilidades de vida fosse o mesmo que comentar o tempo.
— É consciente. — Apressei-me a dizer, perfurando-o com os olhos.
— Oh, mesmo? Então sabe que estará cometendo diversos homicídios, certo?
— O que quer dizer? — O desdém na minha voz tentava encobrir a surpresa que aquelas palavras haviam causado.
— Você tirará a sua vida e sugará a vida de muitos outros. Matará aqueles que te amam. Presenteará com dor seus pais, familiares e amigos mais íntimos. Acha isso justo?
— Viver em meio a toda podridão do mundo? Tenho o direito de escolher se quero isso ou não. Não soa justo?
— Deixa-me ver se entendi: para acabar com o seu sofrimento você o dará para as pessoas que mais te amam? — Sua voz não era acusadora nem soava interessada em uma possível resposta. Mas ele havia me pegado de guarda baixa. Estava agora pensando em minha família, amigos e todas as vozes que disseram que me amavam. Eu não as ouviria de novo.
— Você está errada. — Ele olhava para a noite.
— O que quer dizer?
— Está errada estando aí em cima. Não é o seu lugar.
— Eu não mereço estar viva. — Estava chorando agora. — Sou só mais uma péssima pessoa em um péssimo mundo. Eu... — As palavras fugiram em meio à angústia.
— Você está errada. — Concluiu com um meio sorriso nos lábios.
Aquele estranho estava conseguindo mudar meus desejos. Queria ir para casa. Queria o familiar. Queria ser abraçada. E ele parecia perceber isso.
— Existem muitas maneiras de resolver as coisas. E esta não é uma delas. Agora —encarou-me com aquele olhar penetrante — eu tenho fome. Conheço um lugar legal, gostaria que viesse comigo. — Agora ele sorria.
Estava perplexa. Eu estava no alto de uma ponte, pensando em finalizar minha vida, e aquele agradável estranho continuava falando em comer. Tremendo e por alguma razão que eu mesma desconhecia, desci vagarosamente do arco. Ele parecia satisfeito, mas nada surpreso com minha decisão. Deu-me a mão direita para descer e ficamos perto um do outro. Ele sorria e era absurdamente bonito.
— Uma boa decisão. — Pensei que estava se referindo ao convite de comer quando acrescentou: — A decisão de viver.
Ele parecia mais centrado agora. Culto, profundo. Como se todo aquele encontro tivesse sido proposital.
— Por que eu? — Perguntei encarando-o. — Por que impedir a mim de fazer o que planejava? Por que me permitir viver?
Ele abriu um largo sorriso e disse com sua voz apaixonada:
— Por que não você?
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirFui a primeira a ler e a comentar. 8)'
ResponderExcluirAmo esse texto, é perfeito e me fez chorar, como sempre. *----------*'
Muito bom, Iarlen!!
ResponderExcluirUma delícia de ler e com um final felizzzzzzzz!
Adorei!! Kenia.