— Sua filha vai morrer — disse o médico tentando pôr algum sentimento em suas palavras clínicas. — Ela precisa de um novo coração. Hoje ainda.
A mãe não queria ouvir aquelas palavras. Precisava de ar. Soltou-se do marido e dirigiu-se para a saída do consultório. O ar estava frio. Não conseguia escutar as buzinas. Os passos nas calçadas. As lágrimas em seu rosto. Tudo se resumia a agonia e uma dificuldade incrível de respirar. Embassada pelas lágrimas ela viu um jovem parar para olhá-la soluçar. Ele se aproximou. Tinha olhos tristes. Profundos. Como um túnel. Ele a perguntou o que havia de errado. Ela manteve-se em seu pranto silencioso. Ele se compadeceu dela e sentou-se ao seu lado numa declaração muda de que queria ajudar. Mantiveram-se em silêncio e seus olhos se encontraram. Angústia e preocupação.
— Minha filhinha precisa de um coração hoje ou não resistirá. E é tão injusto, ela é tão pequenina e amável — falou sem desespero. — Eu e meu marido somos incompatíveis devido a idade e é tão difícil e... — As palavras se perderam.
O rapaz a olhava com seus olhos tristes.
— Qual a idade dela? — Perguntou.
— Cinco — respondeu a mulher com a voz embargada.
— Posso vê-la?
A mulher o olhou sem entender.
— Gostaria de conhecê-la — acrescentou com pureza.
A mãe assentiu e se dirigiu para o interior da clínica. Percorreram alguns corredores e pararam diante de uma porta. A mãe secou os olhos antes de entrar.
— Mamãe! — Ouviu-se uma vozinha delicada e sorridente.
Sobre uma cama havia uma menina miudinha de aparência doentia. Possuía alguns tubos nas veias, ligados a aparelhos. Seu rosto era magro e tinha olheiras. Porém era encantador. Emanava inocência e pureza. Como um pequeno anjo. A mãe a beijou e apresentou o jovem.
— Ela parece uma manhã de natal — ele disse sorrindo.
A criança sorriu de volta fracamente e perguntou se ele a sararia.
Houve um momento de silêncio.
Ele respondeu que sim.
Ela pegou seu dedo indicador com sua delicada mãozinha. Com gratidão.
— Eu vou sarar pessoas quando crescer — disse com seus olhinhos no fim da vida. — Mamãe diz que é difícil...
O jovem sorriu, suas mãos ainda se tocando.
— Você poderia até mesmo voar se quisesse — declarou perdido naquela inocência doce.
— Mesmo? — Os olhinhos brilhavam.
Ele assentiu rindo e virou-se para a mãe que assistia a tudo tristemente.
— Em alguns casos não há vida, mesmo com um coração pulsante — disse perdido em seus próprios fantasmas. — Você acredita em milagres?
A mulher o olhou confusa. Ele respirou fundo com os olhos fechados e acrescentou:
— Hoje parece ser um dia de milagres.
Ele rabiscou algo apressadamente em um papel, deixou na mesinha e saiu da sala.
— Ele foi buscar meu coração novo, mamãe?
A mãe sorriu dolorosamente desejando ter aquela inocência esperançosa. Passou o tempo com a menina. Não conseguia tirar os olhos daquela beleza infantil que se esvaía. Ela se sentia pequena. Inútil. E o arrastar das horas aumentavam aquela sensação esmagadora. A menina adormeceu e a mãe se arrastou até a janela, para o entardecer.
As horas pareciam zombar dela e aquele silêncio era incômodo. A porta do quarto se abriu e o marido da mulher entrou chorando, acompanhado de médicos e enfermeiros apressados.
— Há um coração — disse o pai soluçando. — Eles encontraram um coração.
A mulher não acreditava no que ouvia. Chorou e abraçou o marido enquanto removiam sua filha para a cirurgia. Uma enfermeira sorriu e disse:
— Ela vai viver para sarar pessoas.
A mãe chorou ainda mais. A criança abriu fracamente os olhos.
— O moço trouxe meu coração novo, não é mesmo mamãe?
Então ela se lembrou. Voltou correndo para o quarto e procurou em cima da mesinha. Abriu o papel e encontrou uma caligrafia bonita.
Sempre quis fazer algo grande.
Para algumas almas os dias nunca têm cor.
Hoje, finalmente, me sinto vivo. Como nunca.
Pois posso criar sorrisos.
Perpetue a manhã de natal.
Ensine-a todos os dias a acreditar que ela é capaz de voar.
P.S. Você acredita em milagres?
A mulher apertou o pequeno bilhete contra o peito e chorou em agradecimento.
Não por haver seres humanos.
Mas por ainda haver humanidade neles.
E a milagrosa esperança.
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Sério, um dia eu vou chorar um rio. ç.ç' Ta perfeita.
ResponderExcluirgrats for making me cry since the world foundation u_u hate you mf *-*
ResponderExcluirum dos únicos textos que me fizeram chorar (: muito bom !
ResponderExcluiriarlen, vc é incrivel UHSAHSAHSH muito bom mesmo =)
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