quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Porre Universal

O homem estava irritado. Irritadíssimo. Não lembrava-se do motivo. Tratando-se de homens sérios e responsáveis como ele, havia a imensa possibilidade de ser algo insignificante como o botão da camisa que descosturou, algo dito pela namorada ou ambas as coisas. O fato é que ele colocara uma carranca e declarara guerra irremediável contra o mundo.
Caminhava odiando o céu que escurecia e os postes que se acendiam com lentidão. Entrou na primeira porta que encontrou e notou que — por coincidência e improbabilidade tratando-se de homens estressados — era um bar.
Detestou as conversas alegres e as vozes altas. Lançou alguns olhares duros. E dirigiu-se ao balcão. Sentando-se, pediu um drinque, o qual bebeu de um gole.
Tinha sido um dia difícil; pedira mais um drinque.
Havia uma música odiosa tocando; pedira outro drinque.
Estava ligeiramente bêbado e pedira mais um.
Uma mulher gritou algo em algum lugar e o assustou, fazendo-o quase derrubar o conteúdo do seu copo. Decidiu que era melhor virar o copo rapidamente antes que algo sério pudesse acontecer à bebida. Em seguida tomou um outro drinque para seguir o primeiro e verificar se estava tudo bem. Olhou para as duas mulheres embaçadas que gritaram e sorriu bebadamente. Enviou um terceiro drinque para saber porque o segundo não havia dado notícias do primeiro e um quarto para dar apoio moral ao último.
Abraçou algumas pessoas, cantou, sorriu para algumas paredes, pediu uma dose para a viagem e caminhou cambaleante para a saída.
Estava fresco e silencioso, contrastando com o interior do bar. Ele debateu mentalmente uma explicação física para o miraculoso fato de que aquele chão se movia sozinho. Tocou o botão que faltava em sua camisa e lembrou-se do motivo que o levara ali.
Olhou para o céu absurdamente estrelado. E subitamente ele viu. Teve a terrível consciência do tamanho do Universo. O espaço entre um braço e o outro da Galáxia e o número estonteante de estrelas nela. Viu os planetas conhecidos e a imensidão entre eles, embora fossem considerados planetas próximos. Precisava-se de meses, às vezes anos, para viajar de um para o outro, mesmo em velocidades absurdas. E se deu conta de que aquela era apenas uma galáxia. Uma miudinha. Havia centenas de outras, de tamanhos indescritíveis, com infinidades de estrelas e planetas. Ele viu cada uma delas, até as mais distantes, onde nem a imaginação humana era capaz de alcançar. Vislumbrou cada sol. Cada lua. Cada dimensão do Universo. As explosões, as supernovas.
Sentiu-se mal. Inútil. Pequeno. A consciência da imensidão e magnitude de tudo era esmagadora. Tocou o botão solto da camisa e sentiu-se pior. Fútil. Preocupava-se com detalhes desnecessários sem notar a vida que pulsava infinitamente a seu redor. Aquilo era deprimente. Virou o último copo que havia trazido para fora do bar pensando na experiência que estava tendo. Era algo único. Um privilégio. Infelizmente naquele momento seu cérebro parece ter decidido que era demais. O homem cambaleou e desmaiou.
Da magnitude da experiência transformadora restaria apenas uma dor de cabeça astronômica.

5 comentários:

  1. Eu ri do final, mas foi tocante. =D'

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  2. Isso me faz pensar... no quanto beberei essa semana =D

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  3. Show de bola, muito bem escrito...
    Isso me fez lembrar do dia em que decidi fazer Direito... Que apesar de ser pequeno, ainda tenho forças pra lutar...
    Parabens cara

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  4. in the champagne supernova lalala ♪ lembrei dessa música :) oi

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  5. HSUhsuHSUhsUSHushUSH
    dor de cabeça astronômica.

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