sábado, 23 de outubro de 2010

Espírito Altivo

Eu caminhei.
Com as pernas de um paralítico.

Subiram o prado para encontrar céu e quietude. Um em pé e o outro sentado. Era lindo ali. A relva rasteira tinha cor de ouro e o céu os envolvia com sua infinidade azul. Admiraram a paisagem por um instante. O topo do mundo. Era agradável de imaginar.
Cadeira e pernas se moveram um pouco e avaliaram ao redor. Um amplo espaço aberto margeado apenas por ávores distantes. Céu azul com sol brilhante. Perfeito para sonhar.
Tiraram os sapatos e apenas um par de pés sentiu a terra quente e o mato que acariciava. O dono deles perguntou: "Está pronto?" Houve uma troca de sorrisos.
Ele começou a empurrar a cadeira. Seu ocupante sentiu os fios de cabelo se moverem de encontro com a brisa. Sua cadeira aumentou a velocidade e ele fechou os olhos. Mais rápido, pensou. Abriu os braços sentindo-os em atrito com o vento. Seus cabelos, agora descontrolados, dançavam em sua testa. Com alegria.
Ouviu os passos do amigo que o empurrava e, de olhos fechados, permitiu-se imaginar que eram seus pés a tocar o chão com firmeza. Podia sentir a terra por entre seus dedos, saborear cada passada rápida, cada troca de perna. Não conseguiu conter os sorrisos. Aquilo era ótimo! Seu coração estava acelerado e ele ouviu os passos do amigo — seus passos — ficando mais rápidos e mais rápidos. Dois irmãos. Apenas correndo. Apenas vivos.
Podia sentir as pernas se cansando, as pequenas pedras ferindo-lhe os pés a cada passada. Oh, a dor era maravilhosa! Significava sentir, significava viver.
Gargalhou, de olhos fechados e braços abertos. O vento diminuiu e a velocidade também, até pararem. Ofegavam e sorriam. Beberam amizade e respiraram vida por um momento de silêncio.
— Sabe, eu agradeço a Deus todos os dias — referia-se à sua cadeira e situação. — Por ter sido comigo. Pois sei que posso suportar. Mas não suportaria se isto acontecesse a algum amigo. Melhor que seja comigo.
Silêncio e reflexão.
Desfrutaram do céu e da paz e naquele momentou ficou claro.
Nada poderia impedir um espírito livre de se manter de pé, dignamente.
Nada.



Para meu amigo Cícero.

5 comentários:

  1. muito foda mesmo!!
    Nada poderia impedir um espírito livre de se manter de pé, dignamente.

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  2. Mano, tu é o cara, vlw pelo texto.

    Realmente eu penso isso que tu escreveu no fim!


    e tu tem um talento de escrever tbm cara, obg mt bom o texto!

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  3. Mano, meus parabéns...

    Seu vocabulário está excelente e o texto está nitidamente completo e poético.
    Muito bom mesmo.
    Primeira vez que vejo teu blog. Passarei à dar umas voltas nesse teu jardim por outros momentos. Para sentir a brisa em meus cabelos como senti nesse texto.

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  4. Porra, fiquei arrependido de naum ter lido quando vc me mando, vc escreve mto bem cara. Se eu flar que chorei vc nem acredita, mas é verdade. mto bom, passa uma sensação mto boa! parabéns!

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