quinta-feira, 20 de maio de 2010

Cidadão Comum: Irônica Hipocrisia

Sou um hipócrita. Dos grandes. Um fingido, eu admito. Não que haja algum orgulho nisso. Mas é verdade. Entretanto, minha hipocrisia é como uma bala de arma de fogo: letal, porém limitada. Há limites. Preciso me convencer disso. Há limites.
Essas características decadentes, apesar de tudo, me são muito úteis. Permitem-me viver, sorrir. Andar e respirar. Ser contente. Posso desfrutar do céu azul e do lixo nas ruas. Ver crianças famintas e imundas, destituídas de toda e qualquer magia da infância e preservar minha sanidade mental. Consigo facilmente debater-me sobre qual nova peça comprar mesmo quando há famílias inteiras vestindo trapos de roupas embaixo da vitrine. O desconforto dos idosos. As crianças que se desenvolvem sem a paz necessária. A fome. O frio. O desespero. Tudo isso eventualmente passa pela minha cabeça antes de ser gentilmente substituído pela agradável inconsciência do sono na minha cama aquecida, em uma confortável casa de muitos cômodos.
Certa vez, passando por uma rua movimentada, uma criança me chamou a atenção. No meio de todos aqueles rostos, seus olhos encontraram os meus. Seu rosto estava sujo e maltratado pela pouca delicadeza da vida. Seus cabelos, um emaranhado de gravetos e sujeira. Suas roupas pareciam que não eram lavadas há anos, grandes demais em seu corpinho miúdo. Olhava-me com admiração, talvez pelas roupas caras e impecáveis que eu usava. Senti pena dela. Percebi que aquelas crianças também tinham desejos, como todos. Não queriam estar ali naquela posição de humilhação. Senti uma onda de compaixão e vergonha pelas minhas muitas peças de roupas que possuía e não usava, pelo muito dinheiro que luxuosa e levianamente gastava. Aquilo tudo era tão desnecessário! Queria ajudar a criança. Levá-la para casa e cuidar dela. Porém apenas me coloquei a andar com aquele peso na consciência, pensando em como ainda não havia me dado conta de todos aqueles problemas sociais. Parecia um homem novo, reciclado. Com uma nova visão da sociedade e da vida. Cheguei a uma rua comercial e esses pensamentos foram afastados de minha mente como um não-fumante afasta impacientemente a fumaça. Deparei-me com vitrines e me encontrei debatendo mentalmente qual nova peça compraria para fazer a combinação de roupa perfeita. Não precisava delas, é claro. Mas era uma oportunidade. Talvez pelo simples prazer de comprar. Entrei na loja, sorridente e satisfeito com meu mundo de possibilidades infinitas. É, minha hipocrisia não conhecia limites.

Um comentário:

  1. Sabia que era escritor naum!!!
    To zuando fera!
    Muito bom mesmo, ta de parabens!

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