segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Dança da vida

Ei bailarina, do amanhã não tenha medo
nunca verá o amanhã a fazer alguém sofrer.
Não se perca em errado receio,
é o presente, o hoje, que se deve temer.

Viva hoje, bailarina! Futuros podem ser tomados.
Respire sua arte.
Pinte com seu corpo em nossas memórias
sentimentos imaculados.

Não há preço para a excelência
de tocar uma alma, preencher corações.
Com uma expressão ante às luzes do palco,
criar emoções.
Lágrimas de paz aos olhos de vidas de tribulações.

Viva hoje, bailarina! Não fuja das tentações
sem se dar o trabalho de tentá-las.
A luz do palco da vida só se apaga uma vez.
E é para sempre.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Terceira do plural

Há uma infinidade de pessoas na Terra.
E eu tenho a impressão de conhecer as melhores delas.

Eles preenchem-me quando me sinto vazio; completam-me quando todo o resto parece não fazer sentido.
Quando o céu se desfizer em pedaços sobre meus ombros, eles manterão os pedaços unidos. Farão novas todas as coisas em meu universo.
Eles tornam a tudo suportável.
Quando eu não mais puder respirar, eles serão meu sopro de vida; quando não puder enxergar, eles serão as cores do mundo.
Eles me ensinam que é necessário acreditar que um sonho é possível. Que o tempo ruim embora seja severo, ainda dura somente um tempo. E passa.
Calejam suas mãos para me levantarem de novo. E de novo, incansavelmente.
Ensinam-me a progredir e edificar-me. Tentar, sem medo de talvez errar.
Eles me fizeram entender que nada nos afasta, nem mesmo a distância ou a angústia dos anos. Não quando se é uma só carne. Um só sangue. Uma só vida.
Há uma infinidade de pessoas na Terra.
Hoje afirmo que conheço as melhores delas.
Obrigado Deus, por ter-me dado amigos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Você

Quando fui baleado a primeira coisa em que pensei fora você.
Ele viera com sua arma e me pedira a carteira. Levantou aquele metal brilhante em direção ao meu pulsante coração amedrontado. Teve a decência de me olhar nos olhos impiedosamente antes de, com a simplicidade de um movimento de dedo, colocar uma vírgula nos meus sonhos. Era isso. Todos os planos, desejos e futuro estavam cessando em troca de algumas notas coloridas em uma carteira de couro. Quando a primeira bala perfurou-me não houve estalido, dor ou impacto. Não movi um músculo, apenas fechara os olhos. O silêncio vibrante suprimiu todo o resto e seu sorriso declarou-se, pintado em minhas memórias.
Você.
Era o universo prendendo a respiração enquanto eu, talvez uma última vez, me deliciava com a sua feição.
Abri os olhos lentamente. O metal quente ainda estava apontado para mim. Desci o olhar vagarosamente e toquei o peito com as pontas dos dedos. Eles se sujaram, rubro, vivo, envergonhados. Meu sangue se esvaía com a mesma velocidade que minhas ilusões de felicidade futura.
Lembrei do seu toque.
Olhei novamente nos olhos desumanos que me assistiam sucumbir e ele disparou novamente.
Desta vez fora cruel. O estampido fora ensurdecedor e o impacto me jogara contra a parede. Sabia que o projétil havia me rasgado por dentro e encontrava uma imensa dificuldade em respirar.
Senti falta do seu abraço.
A dor lancinante insistia em me tomar a consciência. Escorreguei pela parede de encontro ao chão, pintado-a de vermelho por onde minhas costas tocavam. Uma arte obscena. Um fruto da habitual iniqüidade humana. O homem calmamente pegara minha carteira, minha vida, e se fora. Eu não conseguia me mexer. O asfalto estava frio e parecia grudar em meu rosto. Não era uma boa maneira de se morrer. O vento sussurrava despedidas inteligíveis em meus ouvidos. Vozes desesperadas e o calor de seus donos tentavam me manter aquecido. Reconheci as mãos que acariciavam meu rosto, embora não a pudesse ver. Nem o hálito da morte poderia me confundir se tratando de você. Suas mãos tremiam e seu medo sentara-se ao nosso redor, velando por meu corpo sublinhado por terra. Desejava te olhar e, por trás das lágrimas, vi teu rosto contra o céu movendo-se de forma negativa, como se não acreditasse. O medo nos seus olhos magoara mais que as feridas na minha carne. Tive vontade de abraçá-la. De sorrir para lhe mostrar que estava tudo bem. Todavia não houve palavra. Não houve fôlego. Não houve vida. Segurou minha mão e tocou meus lábios maculados. Impotente. Assistindo ao fim, enquanto eu virava estatística. Apenas mais uma vida tirando outra. Mais um ser humano atirando no espelho.
Sentia frio, vida e sangue deixando-me. Tive vontade de trocar seu pranto por risadas, ainda que algumas poucas.
Senti saudade das palavras doces.
Estou morrendo e a única coisa em que eu consigo pensar é...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um

Chovia e suas roupas estavam ensopadas. Os cabelos grudavam na testa e os lábios se tocavam umedecidos pela água que caía das estrelas. Abraçados de pé em uma praça, ele olhou para sua outra parte e ela sorria. Aquilo era mágico! A noite sorria com ela e por um momento ele não conseguia mais ouvir o barulho das gotas tocando o solo ou as folhas das árvores que se agitavam por todo o redor. Apertou-a contra seu corpo e ouviu não um par de corações ritmados, mas apenas um.
Era exatamente o que sentia.
Unidade.
Tocá-la era se tocar, vê-la sorrir era estar feliz, amá-la era estar vivo.
Perguntou-a se preferiria esconder-se da torrente impetuosa que provinha das nuvens e sua resposta não poderia ser mais perfeita. Ela preferia manter-se ali, ainda que fatigada, unida a ele. De tal modo a confundir-se ambos.
A torna-se um.
Sorriram, felizes com a simplicidade da vida. O desejo veemente presente era satisfeito com a mistura de algumas gotas de chuva, olhares e mãos entrelaçadas. Era a combinação para a excelência.
Olharam-se paciente e carinhosamente por uma eternidade ou mais e se beijaram.
Naquele momento, não havia altura ou profundidade, medo, dor, presente ou futuro.
Predominava a certeza de que nada os separaria.
Pois eram mais do que mil.
Eram Um.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Viver

Sou cego, tenho câncer e sei que vou morrer.
Não nasci sem a visão, como se pode presumir. Pelo contrário, eu vi o verde; vi as estrelas; vi os milagres da vida.
Fui privado de enxergar ainda jovem e, embora sem saúde, continuava sedento de vida. A ausência de um de meus sentidos mais valiosos me tornou um ser humano de ambições simples. Desejava ver o céu de novo. Cobiçava subir bem alto apenas para contemplar a beleza da luz. Almejava ver meu corpo emagrecer e perder a vida. Até mesmo assistir ao câncer comer minha saúde, pouco a pouco.
Não fui abençoado com este privilégio. Para mim, apenas dolorida escuridão.
Os cegos dias me fizeram invejar hábitos e situações cotidianas. Simples. Oh, como gostaria de me estressar ao ver o semáforo mudar de verde para o amarelo! O olhar de reprovação da minha mãe ou tão somente o sorriso debochado de alguém.
Antes era apenas ausência de luz e cor. Agora, porém, é ausência de prazo. Tenho câncer. Além da visão, perdi o irrecuperável. Tempo.
Cada manhã que abro meus olhos para as sombras da minha mente meu espírito é impedido de ser cativado pela perfeição que agrada a vista.
Porém, eu agradeço todos os dias.
Por estar vivo.
O mundo, na condição de não o poder ver, aprendi a vivê-lo.
E cada sorriso que ouço é especial.
Todas as vezes que sou aquecido pela luz do sol, sou capaz de vivê-lo, amarelo e brilhante.
Cada brisa que me toca o rosto é especial, única e última.
Com isso, perdido na escuridão da minha alma limitada, aprendi o maior dos ensinamentos, esquecido há muito por muitos.
Sabedoria de verdade é Viver.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Por favor

Papai Noel,
não quero mais a bicicleta que pedi.
Papai voltou a fumar.
Mamãe tem tomado remédios.
Eu a vejo sempre com olhos inchados.
Papai Noel, esqueça-se da boneca que havia pedido.
Faça-os parar de brigar.
Por favor.
A raiva deles magoa meus ouvidos.
Por favor, eu serei sempre uma boa criança.
Mas não deixe meu lar se tornar uma casa mal-assombrada.
Por favor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um anjo no quarto

Ele era jovem. Mas já desejava escapar deste mundo. A decisão já havia sido tomada, embora o pensamento do ato fosse indesejado. Era claro que era a mais pura demonstração de egoísmo, mas a esmagadora sensação de deslocamento que sentia sobrepunha-se sobre a razão. Subiu as escadas para o apartamento vagarosamente. Cada passada era bela, única. Última. Girou a maçaneta e entrou no aposento escuro. Estava praticamente vazio, exceto por uma prateleira apinhada de livros e um colchão no chão. A luz da rua entrava pela janela aberta e pousava sobre o corpo dela. O lençol se esparramava por cima do corpo despreocupadamente. Uma das mãos descansava no chão, enquanto a outra abraçava o travesseiro no lado vazio do colchão, onde ele deveria estar deitado. Onde era seu lugar. O rosto dela estava claro, tranqüilo. Puro. Parecia emanar luz. Ele desenhou com o olhar cada linha da sobrancelha, dos olhos fechados, os cabelos negros que flutuavam sobre o travesseiro. Chegou mais perto. Ela era extraordinariamente bonita. Ele a tocou levemente o rosto e sentiu vontade de aninhar-se a ela. Necessidade dela. Desejou por um momento que ela abrisse os olhos, porque queria que ela olhasse nos seus. Ela se moveu preguiçosamente e colocou sua mão na dele, para mantê-la em seu rosto. Ele tentou levantar-se para não acordá-la.
— Oh, não ouse me deixar — sua voz sorria suavemente.
A voz. Era vida. Ele a olhou e ela sorria sonolentamente. Por um momento ele pensou que aquele pedido não era algo que precisava ser verbalizado. Não havia realmente um mundo. Não havia tristeza, ou medos. Havia apenas aquele sorriso. Apenas aquela voz. Ele acariciou os cabelos negros e sentiu-se completo pela primeira vez no dia. Percebeu que a amava na essência, na plenitude. E que não era algo do qual se poderia abrir mão. Não conseguia se lembrar porque desejava desistir de tudo apenas instantes atrás.
— Gostaria de um pouco de chá. Mas tomaremos amanhã — os olhos estavam fechados e a voz serena.
Ele concordou com um sorriso e preparou-se para se deitar ao lado dela. Sentia que poderia ficar ali para sempre descobrindo novas maneiras de se apaixonar por ela de novo.
Oh, haveria um amanhã.
Porque aquele amor.
Era viver.