segunda-feira, 10 de maio de 2010

Idade

Abriu os olhos no meio da noite e pensou ainda estar dormindo. A sonolência misturada com o negrume do quarto o deixou confuso. Sonhos só serviam para isso, pensou, para deixar-nos frustrados e tirar-nos o sabor do sono. Virou-se lenta e preguiçosamente na cama, sentindo os ossos rangerem e tateou o lado oposto do colchão encontrando o outro travesseiro.
Vazio.
Puxou o braço sentindo a aproximação de sentimentos os quais vinha tentando evitar. Agora o sono o abandonara por completo. Com algum esforço decidiu levantar-se e sentiu dores pelo corpo inteiro. Esticou os braços cegamente e se deparou com a lisa superfície da mesa de cabeceira sob seus dedos. Apoiou-se. Descansar estava se tornando cansativo e levantar-se exigia um grande esforço. Agora tudo parecia mais pesado, as distâncias pareciam mais longas, e a energia se consumia com facilidade. Encontrou os óculos e o guarda-chuva. Este último era demasiado antigo e guardava infinitas memórias no seu plástico e tecido negro. Fora usado em dias de chuva de verão, em noites furtivas de namoros secretos, divertidos banhos de chuva com direito a risadas e caminhadas despreocupadas.
Apanhou-o e apoiou-se nele, como a uma bengala.
A noite silenciosa acompanhava o cambalear do homem.
Curvado.
Como só o tempo era capaz de fazer.
Aliás, era uma curiosa maneira de se ver as coisas. Curvado pela força sufocante dos anos, pelo peso das memórias, as decepções, os amores, as noites mal dormidas, os casos mal resolvidos. A vida. O senhor Tempo mostrando mais uma vez aos frágeis humanos que toda sua glória era tolamente findável.
O ruído da ponta do guarda-chuva tocando o empoeirado chão de madeira somava-se aos passos lentos e abafados. Ao atravessar o portal do banheiro tateou a parede úmida à procura do interruptor. Semicerrou os olhos quando o globo de luz no teto inundou o pequeno cômodo com luz amarelada.
Assustou-se. Seus olhos estavam vidrados. Arregalados por trás das lentes. No espelho.
Aproximou-se.
Lentamente, até ficar a apenas centímetros da superfície espelhada. A respiração saía de seus pulmões ruidosamente embaçando sua imagem. Seu fôlego fora tomado por alguns segundos, ou por horas, ele não saberia dizer. O que ele via refletido não lhe era muito seguro.
Não havia mais sorrisos brilhantes, gargalhadas, diversão. O glamour, as peripécias e a irresponsabilidade foram deixados para trás. De que valera todo egoísmo, a arrogância e a pretensão da juventude?
Agora, seus olhos estavam avermelhados e com profundas olheiras. Seus dentes amarelados e tortos. Seus cabelos esbranquiçados. A pele estava enrugada, sensível e não possuía mais nenhum brilho. Suas veias estavam salientes nas mãos, suas unhas ganhando um leve tom arroxeado. Sua barriga estava flácida e perdera muitos centímetros de altura.
O Tempo.
Uma luz piscou por uma fração de segundo, ameaçando se apagar, mas manteve-se. O homem continuou se encarando enquanto memórias brotavam prontas para consumir, como fazem as memórias.
Decidiu que não era seguro ficar ali sozinho enfrentando aquilo que se tornara. Ele mesmo. Devolveu a negritude ao cômodo e voltou para o quarto a passos vacilantes e algumas batidas de guarda-chuva.
O vento cálido, embora não convidado, entrava pelas frestas da janela e enchia o quarto. Como fantasmas. E o frio da noite gentilmente o aconselhou a pegar um cobertor. Caminhou cegamente procurando pelo antigo armário de madeira maciça que deveria estar postado em alguma das paredes escuras. Encontrou-o e escancarou suas portas.
Deteve-se. A brisa e o cheiro de guardado vieram acompanhados.
Pelo perfume de sua esposa que agora dormia eternamente.
Pelas memórias.
Os anos e a experiência nos ensinarão como controlar muitas emoções. A mágoa. O ódio. O rancor. Até mesmo o amor. Mas há um sentimento indomável que nem a excelência do tempo é capaz de domesticar. A tristeza.
E assim ele caiu fragilmente e chorou. Sentia as lágrimas queimarem sua pele envelhecida pela idade. Arrastou-se até um canto escuro do quarto e encostou-se na parede, a respiração dificultada, misturada aos soluços. As lágrimas deveriam ter cessado, o sol nascido, e aquela noite de tristeza ido embora.
Não cessaram. Não houve sol. Mas a saudade sentou-se no fundo de sua mente e se recusou a sair.
A solidão o esbofeteava brutalmente e ele sentiu falta da voz da esposa, do beijo dela. Lembrou-se dos sorrisos, dos olhares, das cartas trocadas no início de tudo. Os anos juntos, as viagens, os lugares que costumavam dormir à noite. E com desespero lembrou-se das brigas. Amargamente se deu conta de como tudo passa e de como havia perdido tempo. Deveria ter sido melhor. Um homem melhor. Um marido melhor. Percebeu que cada palavra ofensiva poderia ter sido substituída por carinho, deveria ter aproveitado mais os momentos preciosos.
O arrependimento o rasgava por dentro enquanto soluçava violentamente. E ele desejou ser abraçado. Mas não haveria abraço. Não para este senhor. Não esta noite.
A nostalgia era palpável. Um pedido silencioso aos céus, vindo do canto escuro de um quarto.
Tira-me daqui. Leva-me embora também.
Oh, como ele sentia falta da familiaridade de tudo, dos almoços aos domingos com a família. Dos risos que enchiam a casa de cor. Dos filhos que cresciam e iam embora.
Eu não quero mais ficar aqui.
Chorou, com suas mãozinhas frágeis e enrugadas.
Lembrou-se do casamento, quando prometeram que aquilo seria para sempre. Foi além, lembrou-se dos pais e desejou desesperadamente ouvir o sussurro de boa noite da mãe, tocar suas mãos. Os gemidos continuavam a vir do canto do quarto.
Cante de novo para mim, mamãe. Cante para eu dormir. E não mais acordar.
Acreditara que a vida o pedia para ser forte até perceber que não era realmente um pedido. Não havia opções.
Pensou em como era doloroso perder algo que não era capaz de substituir, pois era isso o que o tempo significava. O irrecuperável.
O pranto estendeu-se por toda aquela noite longa e rastejante até cessar vagarosamente, dando lugar a uma calma vazia e vibrante. Continuou sentado no chão frio, as lentes dos óculos embaçadas e a roupa úmida, uma mistura de suor frio e lágrimas salgadas.
Pensando sobre todo o tempo que se passou, sobre as pessoas que se foram, a experiência acumulada, permitiu-se luxuosamente um último lamento:
Malditas oportunidades perdidas.
Terminada a noite de árdua vigília adormeceu no chão na companhia dos primeiros raios de sol.

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