segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Você

Quando fui baleado a primeira coisa em que pensei fora você.
Ele viera com sua arma e me pedira a carteira. Levantou aquele metal brilhante em direção ao meu pulsante coração amedrontado. Teve a decência de me olhar nos olhos impiedosamente antes de, com a simplicidade de um movimento de dedo, colocar uma vírgula nos meus sonhos. Era isso. Todos os planos, desejos e futuro estavam cessando em troca de algumas notas coloridas em uma carteira de couro. Quando a primeira bala perfurou-me não houve estalido, dor ou impacto. Não movi um músculo, apenas fechara os olhos. O silêncio vibrante suprimiu todo o resto e seu sorriso declarou-se, pintado em minhas memórias.
Você.
Era o universo prendendo a respiração enquanto eu, talvez uma última vez, me deliciava com a sua feição.
Abri os olhos lentamente. O metal quente ainda estava apontado para mim. Desci o olhar vagarosamente e toquei o peito com as pontas dos dedos. Eles se sujaram, rubro, vivo, envergonhados. Meu sangue se esvaía com a mesma velocidade que minhas ilusões de felicidade futura.
Lembrei do seu toque.
Olhei novamente nos olhos desumanos que me assistiam sucumbir e ele disparou novamente.
Desta vez fora cruel. O estampido fora ensurdecedor e o impacto me jogara contra a parede. Sabia que o projétil havia me rasgado por dentro e encontrava uma imensa dificuldade em respirar.
Senti falta do seu abraço.
A dor lancinante insistia em me tomar a consciência. Escorreguei pela parede de encontro ao chão, pintado-a de vermelho por onde minhas costas tocavam. Uma arte obscena. Um fruto da habitual iniqüidade humana. O homem calmamente pegara minha carteira, minha vida, e se fora. Eu não conseguia me mexer. O asfalto estava frio e parecia grudar em meu rosto. Não era uma boa maneira de se morrer. O vento sussurrava despedidas inteligíveis em meus ouvidos. Vozes desesperadas e o calor de seus donos tentavam me manter aquecido. Reconheci as mãos que acariciavam meu rosto, embora não a pudesse ver. Nem o hálito da morte poderia me confundir se tratando de você. Suas mãos tremiam e seu medo sentara-se ao nosso redor, velando por meu corpo sublinhado por terra. Desejava te olhar e, por trás das lágrimas, vi teu rosto contra o céu movendo-se de forma negativa, como se não acreditasse. O medo nos seus olhos magoara mais que as feridas na minha carne. Tive vontade de abraçá-la. De sorrir para lhe mostrar que estava tudo bem. Todavia não houve palavra. Não houve fôlego. Não houve vida. Segurou minha mão e tocou meus lábios maculados. Impotente. Assistindo ao fim, enquanto eu virava estatística. Apenas mais uma vida tirando outra. Mais um ser humano atirando no espelho.
Sentia frio, vida e sangue deixando-me. Tive vontade de trocar seu pranto por risadas, ainda que algumas poucas.
Senti saudade das palavras doces.
Estou morrendo e a única coisa em que eu consigo pensar é...

6 comentários:

  1. fui a primeira a ler né fazer o que fã número 1 com insonia é outra coisa kk

    *-*

    voce escreve mt querido parabens :*

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  2. Que pecado, coitada da pessoa. ç.ç' Esse foi muito triste.

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  3. Me orgulho de te chamar de primo,a cada vez que venho aqui..

    =]]

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  4. nossa, q triste, fikei me imaginando no lugar deste.. Parabéns.. Ah sou prima tb, kkkk

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  5. Não é apenas uma história, nos transmite emoções e sentimentos através de sábias e belas palavras! Muito lindo, Você é fod* Iarlen...

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