quinta-feira, 6 de maio de 2010

Eles

Caminhavam lado a lado na larga avenida deserta. Os passos arrastados e a respiração ansiosa eram os únicos sons presentes, e esta última prenunciava a despedida não verbalizada, porém iminente. A angústia era tão real que era quase possível tocá-la se estendesse o braço um palmo à frente. Ela dizia que o amava. Ele exalava carinho por ela. Porém não dera certo.
Ela mantinha a cabeça baixa num vergonhoso gesto de não ter gestos. Não ousava olhar para o lado. Era vergonhoso, ela sabia, mas tinha de admitir. Fracassara. Tentara, mas não conseguira ser suficientemente boa para ele. Havia um oceano de diferença entre os dois separando-os, colocando-os em continentes distintos da vida. Hábitos imutáveis. Mentiras. Hipocrisias. Oceanos intransponíveis. Mares violentos.
Ele fitava a rua vazia, lançando periodicamente olhares machucados à pessoa ao seu lado. Costumava vê-la como sua outra parte, um mesmo ser. Agora essa parte apenas se afastava sem nenhum meio imediato de trazê-la de volta. Impotente. Como isso veio acontecer, ele se perguntava com o desagradável acelerar do coração. Quem roubou os sorrisos, os sonhos e os planos? Fora o destino? O azar? Não. Provavelmente teve mais a ver com as medíocres escolhes humanas. Os erros.
Uma goteira se fez ouvir no longo caminho do jovem casal ferido. As paredes escuras choravam o fim de mais uma coleção de sonhos. Ela desejava voltar, interromper aquela estrada de despedida e abraçar novamente o cômodo conforto da segurança. Mas ela não mudaria. Não havia mudanças eternas, alegava, as diferenças continuariam existir. Não pertenciam um ao outro.
Ele emitia frustração em ondas e se surpreendia com o fato de ela não ser atingida violentamente por estas. Ele a queria. Muito. Não é justo, pensava. Ninguém havia dito que era fácil, mas ninguém havia dito que seria tão difícil assim. Estava cansado de tentar, cansado de ter de ensinar coisas que já deveriam ser conhecidas há muito. Mas isso não aliviava o sentimento de desespero do lento fim.
À frente, um cruzamento. A avenida escura estava terminando, dando lugar a uma rua residencial iluminada por postes amarelados. Era o fim para os dois, sussurrou a atmosfera. Diminuíram o ritmo dos passos um pouco. A tristeza era mútua assim como o desejo de parar. Não pararam. Algumas coisas nunca são consertadas e há um abismo entre o desejo e a realização deste.
As respirações se materializavam no ar gélido e se abraçavam, permitindo-se luxuosamente satisfazer o que os corpos negavam.
O eco dos passos se assemelhava a gemidos, até cessarem. Pararam à esquina que os separaria definitivamente. Ela iria para seu apartamento. Ele seguiria seu caminho. Mundos diferentes, agora separados. Vidas diferentes. Todavia, um convidado em comum. Lágrimas.
Ela se vira para finalmente encará-lo. Um último olhar. Um adeus marejado de lágrimas.
— É tarde demais para me desculpar?
Ele a fita, memorizando os traços de seu rosto, saboreando o cheiro da sua voz:
— Nunca...

2 comentários:

  1. Iarlen, obrigada pelo presente- poder saborear a leitura destas preciosidades. Orgulho-me de você!
    Beijão,Claudinha

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  2. Poucos são os que conseguem transmitir e tocar aos que leem. E em todo os textos aqui presente , você consegue isso ! Meus parabéns, e obrigado, porque achamos em palavras, aqui, aquilo que sentimos e muita das vezes não conseguimos expressar.

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